Osíris
do livro Gozo Fabuloso
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Ramsés, meu bem, acorde. Acho que tem alguém batendo. Como ousa, minha amada, minha irmã, ó lótus da primeira lua da primavera, acordar o filho do Sol? Espero a hora de Osíris. Sério, Ramsés. Ouço barulho de gente tentando arrombar a porta da pirâmide. Tá bem, tá bem, Nefertiti. Vou ver o que há. Tome cuidado, amor. Sofri tanto quando você morreu a primeira vez. Deixe comigo. Esses ladrõezinhos de tumbas vão ver uma coisa. Escutou? Escutei. Pã, pã, pã. Acho que é só um. Quem viria roubar, sozinho, a pirâmide de Ramsés? Sozinho? Sozinho. Nefertiti, me diga uma coisa. Como foi que aquele sacerdote de Bubástis disse que meu pai Osíris iria me ressuscitar? Tantos séculos, não lembro mais. Lembro que disse uma coisa. Que foi? Ele viria sozinho. Tem certeza? A certeza aos vivos pertence. Me parece, de qualquer forma. A merda é que eu não consigo me lembrar de nada daquela maldita frase. Mas acho que tinha alguma coisa que ver com o que você está dizendo. Sozinho, você disse? Pã, pã, pã, ouviu? Ele está sozinho. Pode ser um ladrão. E se for Osíris? p. leminski 84 |
(in revista Medusa nº 6, p.17, agosto-setembro 1999)
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