Entre os Krause e
os Gouveia, as diferenças começaram quando o mais jovem dos Krause (ou foi dos Gouveia?) comprou um aparelho de som.
Desse dia em
diante, os Gouveia (ou eram os Krause?) não souberam mais o que era sossego.
Nessa época, minha
avó contava, Curitiba, já famosa pela escuridão das suas noites, produzia o
melhor silêncio do Brasil. Um pai de família passava anos sem dizer coisa
alguma, e ninguém estranhava. Havia professores, muitos deles célebres, que
davam, em silêncio, aulas de francês, de latim, de alemão, de polonês, de
italiano, de hebraico, de árabe. E, em silêncio, educaram gerações.
Não era de admirar
que o aparelho de som comprado pelo jovem Gouveia (ou era Krause?) fosse
execrado como uma praga que se abatia sobre aquela rua Duque de Caxias, até
então tranqüila como um assobio de passarinho distraído.
Quando a cidade era mais calma.
O bairro não é mais de respeito.
Caso de policia.
Por cima da cerca,
fazendo sabão de potassa, Krauses, Gouveias e vizinhas.
Quando o luxuriante
chuchuzeiro dos Krause (ou era o dos Gouveia?) começou a secar, alguém, por
acaso, associou o evento com as valsas e tangos que explodiram na casa vizinha?
Um mês depois de
muito som, o chuchuzeiro estava completamente seco.
Uma semana depois,
morria a bisavó dos Gouveia (ou não?), uma senhora quase centenária, dura como couro e
surda como uma porta.
Seria um absurdo
imaginar que a velha tinha morrido por causa do som. E foi o que eles fizeram.
A gravidade da
situação exigia uma medida enérgica.
Os Krause (ou os
Gouveia?) se reuniram em assembléia familiar, só os machos de mais de quinze
anos.
isto não pode continuar.
A mais velha voz
ressoou no salão, ecoando entre circunspectos pais de família e adolescentes
que pareciam estar com bicho-carpinteiro.
Procurar as autoridades.
Invadir e quebrar tudo.
Poupar as mulheres e crianças.
Incendiar o casarão.
A mais velha voz:
Nossa família passou despercebida da
penúria para a abundância e agora vocês querem estragar tudo com um escândalo
que vai se ouvir léguas daqui, e vai durar mil anos?
Olhou a
descendência, e sentenciou:
Vamos combater com as mesmas armas.
Foi assim que o
jovem Krause (quem sabe Gouveia) pegou o trem e desceu a serra em direção a
Paranaguá para comprar um aparelho de som.
2
Mas nem todos os
Gouveia (ou eram os Krause?) detestavam o som do vizinho com ódio tão implacável.
A filha mais velha
dos Krause, por exemplo, costumava ficar olhando a lua, quando o som começava.
Mesmo que não tivesse lua.
A mãe percebeu
logo.
Nem pensar.
Mas ela pensava.
Como é que seria uma pessoa que ouvia aquelas coisas, àquelas horas, naquela
altura? Como é que ele seria?
Bem que a avó avisou. A gente não devia ter
vindo.
Talvez fosse
baixinho, e por isso ouvia o som tão alto,
um baixinho bonitinho, como um filho querido. Quem sabe fosse alto, por isso
deixava o som naquela altura. Só sei que não podia ser uma pessoa comum aquele
que ouvia
el dia en que me quieras
como se fosse o dono da rua, o rei da vida e senhor do mundo.
Essa gente não tem educação.
Como seria? Louro, alto, baixo, moreno,
esbelto, gordinho, forte, frágil?
Espere só o seu irmão voltar.
3
Em Paranaguá, o irmão mais velho ia na
importadora, comprava a máquina e embarcava serra acima, de volta para
Curitiba.
Eles estão com os dias contados.
Dizem que é agulha inglesa, o som cobre uma quadra.
Isso não pode continuar
Como é que ele será?
Isso não pode continuar.
El dia en que me
quieras.
A gente não devia ter vindo.
Bem que a avó avisou.
Combater com as mesmas armas.
Uma loucura a gente se encontrar assim.
No trem das sete.
Alguém pode ver a gente.
p. leminski
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