Ontem à noite, pouco antes de ir deitar, deixei um período incompleto na máquina.
Hoje, ao acordar, votei ao trabalho e vi que a frase tinha continuado.
Alguém anda escrevendo nos meus textos.
A frase incompleta que eu tinha deixado dizia:
Mas tem uma outra coisa absoluta, e parava em dois pontos, assim, "mas tem uma outra coisa absoluta": Adoro deixar frases com dois pontos no final, quando vou dormir. Durmo mais feliz sabendo que deixei uma frase com um problema. Amanhã, com outra cabeça, a frase tomara seu curso normal em direção ao seu glorioso clímax.
Hoje aconteceu alguma outra coisa. A frase caminhou sozinha.
E o que dizia:
Mas tem uma outra coisa absoluta: Marion que a ciência ainda não descobriu: Marion era uma mentirosa.
Marion? não tem nenhuma Marion na minha vida, nem nunca teve.
Além do mais, a continuação da frase discrepava totalmente do espírito do texto, um ensaio que eu chamaria de "Matéria, Energia e Intenção", onde procurava provar, apenas com palavras, que, além de matéria e energia, o universo parecia conter um outro ingrediente que, na falta de nome melhor, eu chamava de intenção. Uma dessas coisas, enfim, que eu faço para não ter que ver as horas passarem.
Claro que eu podia pensar, bebi e fumei demais a noite passada, e acabei escrevendo bobagem. Uma daquelas noites em que o fio da lógica escapa, você se entrega às delícias do arbítrio, escreve o que bem entende, vai dormir orgulhoso, acorda e lê, e morre de vergonha que a luz do dia veja uma frase como aquela.
Podia ter acontecido. Mas essa hipótese tinha muitas coisas contra.
Primeiro, o fato de que eu não tinha fumado nem bebido demais na noite passada. Segundo, o fato de que isso nunca ocorreu antes e, se não ocorreu, é porque não ocorre. E acima de tudo, os erros que a continuação apresentava. Faltava uma vírgula, eu jamais a deixaria faltar, entre Marion e "que a ciência". Havia um acento agudo sobre "era", que estava "éra", coisa que vai contra todos os meus princípios. Mas o que mais me intrigava eram os duplos dois pontos: se fossem autênticos seria a primeira vez em toda a minha obra que lançava mão desse efeito tão duvidoso. Dois pontos, pra mim, sempre foi que nem câncer, infarto ou derrame, uma vez, e boa noite.
Mas era a absoluta falta de talento da continuação da frase que me deixava mais convicto: isso não é meu.
Fui lá fora e gritei para a noite: isso não é meu, isso não é meu, isso não é meu, até os vizinhos acenderem as janelas.
Voltei e a frase tinha continuado. Agora, não era mais uma mera continuação, um amontoado plebeu de palavras, encabeçado por um mísero vocábulo começando em minúscula. Não. Agora, era uma palavra com maiúscula, demonstrando claramente suas pretensões de inaugurar nova frase, um novo período uma nova vida.
Ótimo, isso afastava a minha primeira hipótese, de que algum dos amigos que me freqüentam, na maior parte escritores, tivesse me pregado uma peça. Essa hipótese, aliás, eu já tinha rejeitado desde o início, desde que constatei que as palavras da continuação estavam graficamente homogêneas, tinham sido batidas na máquina com a mesma pressão dos meus dedos, nem força a mais, nem força a menos, e isso é impossível de acontecer casualmente.
As suspeitas recaíram todas então sobre meus criados.
O motorista e jardineiro, impensável. Eram broncos analfabetos, incapazes de distinguir uma torradeira de um aparelho de barbear.
Restavam os de dentro de casa. Carla? Nemo? Magda, não. Essa tinha por tudo o que eu fazia uma relação de freira com o altar mor da capela.
Não sei muito, mas sei o suficiente para saber que o suspeito oficial de qualquer delito é a pessoa a quem o delito mais favorece.
Pode ser que Carla tivesse continuado minha frase para me fazer pensar que o culpado fosse Nemo, ela que o odiava tanto que toda a noite eu a ouvia gemer dentro do quarto dele.
Quem sabe Nemo.
Eu ia ter que despedir um deles. Quem sabe os dois. Quem sabe não era uma boa coisa despedir ninguém. Com a casa vazia, quem ia continuar minhas frases? Eu ia ter que continuá-las sozinho. E isso é pior que viver com uma dúvida.
No final desta frase, vou deixar dois pontos como quem deixa a meia pendurada no dia de Natal para que Papai Noel ponha um presente dentro dela.
Sabe lá onde essa frase vai parar.
p. leminski
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