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Todos os japoneses sabem, nas tardes cinzentas de outono, seu imperador está nos subterrâneos do palácio contemplando as incontáveis criaturas dos seus aquários
Paulo Leminski
Hirohito, imperador do Japão, ama os peixes e os seres do fundo do mar. Tem em seu palácio aquilo que é talvez o maior aquário do mundo. Nele, centenas de enormes caixas de vidro encerram os peixes de água doce, as jóias coruscantes dos setes mares, as singularidades do Amazonas, os siris, os caranguejos e as lulas, os polvos e as lâminas das piranhas e dos tubarões. Na primavera passada, depois de longa espera, a televisão japonesa conseguiu uma entrevista com o imperador. Perguntaram: Qual a diferença entre um tubarão e um canção? O imperador olhou para o infinito, que é para onde um imperador deve olhar, e respondeu: “Tubarão é quando ele come a gente. Cação é quando a gente o come”. O Japão inteiro levou um ano todo pensando na frase do imperador, onde se sintetizava toda a sabedoria. A paixão pelos peixes veio ao imperador depois da derrota na Guerra, quando, à sombra de dois cogumelos atômicos em Hiroshima e Nagasaki, o imperador mandou para a Rádio Tóquio um disco com um discurso de rendição. Como os imperadores e a família imperial só falam em japonês arcaico, o povo não entendeu direito o discurso de rendição. Distinguiram apenas algumas palavras significando “guerra”, “morte”, “destruição”, “ruínas”, “Japão”. Desde a ocupação norte-americana, Hirohito entregou-se à sua paixão pelos peixes e outros seres das profundezas. Todos os japoneses sabem, nas tardes cinzentas de outono, seu imperador está nos subterrâneos do palácio contemplando as incontáveis criaturas dos seus aquários. Os que dão maior prazer ao imperador são os peixes das profundidades abissais aonde a luz do sol não chega, peixes cegos e luminosos que Hirohito trata como se fossem as jóias da coroa, o Chauliodus, que acende e apaga como um trem da noite, o Ichtyococcus, uma nave espacial com a boca permanentemente aberta, o Lampedusys, que explode em luzes coloridas quando se aproxima a fêmea, o Ptyx, que risca na água sem parar uma linha hipnótica de fios de luz azuis e vermelhos. Há os peixes que parecem outras coisas, peixes imóveis que lembram cáctus do deserto mexicano, um que é idêntico às pedras onde mora e outro que tem a cara do imperador. Em um desses peixes, o imperador acredita ver o antepassado mítico da família imperial, ininterruptamente reinante há mais de mil anos, descendente direto daquele peixe que a deusa do Sol, Amaterasum, cavalgou para escapar das forças do Caos, aquela outra mãe, mais antiga, sem nome, que a odiava e perseguia sem devorá-la. Nas águas fundas do passado, nadam os ilustres ancentrais divinos, o imperador Tennô, que separou a terra das águas, nos primórdios. O imperador Taika, seu bisneto, que deu as águas aos peixes e o céu aos passarinhos. A imperatriz Oku-ni, que deu de mamar à lua durante um eclipse. Mas já é tarde. O imperador se retira, apagando as luzes do aquário, dando boa noite a todos os peixes. Recolhe-se ao quarto imperial onde deita e dorme, sonhando com peixes luminosos e cegos.
Paulo Leminski
OBS: Publicado originalmente como "inédito" no site da revista Mirada Global
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