p. leminski

la vie en close

 



                        L'ÊTRE AVANT LA LETTRE


           la vie en close

        c'est une autre chose


          c'est lui

                    c'est moi

                              c'est ça


        c'est la vie des choses

     qui n'ont pas


                  un autre choix

				  
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		°


           sossegue coração
        ainda não é agora
           a confusão prossegue
        sonhos afora

           calma calma
        logo mais a gente goza
           perto do osso
        a carne é mais gostosa


		°


                        ERRA UMA VEZ


           nunca cometo o mesmo erro
        duas vezes
           já cometo duas três
        quatro cinco seis
           até esse erro aprender
        que só o erro tem vez


		°


                       DONNA MI PRIEGA 88


           se amor é troca
        ou entrega louca
           discutem os sábios
        entre os pequenos
           e os grandes lábios

           no primeiro caso
        onde começa o acaso
           e onde acaba o propósito
        se tudo o que fazemos
           é menos que amor
        mas ainda não é ódio?

           a tese segunda
        evapora em pergunta
           que entrega é tão louca
        que toda espera é pouca?
           qual dos cindo mil sentidos
        está livre de mal-entendidos?


		°


                        PROFISSÃO DE FEBRE


           quando chove,
        eu chovo,
           faz sol,
        eu faço,
           de noite,
        anoiteço,
           tem deus,
        eu rezo,
           não tem,
        esqueço,
           chove de novo,
        de novo, chovo,
           assobio no vento,
        daqui me vejo,
           lá vou eu,
        gesto no movimento


		°


           o bicho alfabeto
        tem vinte e três patas
           ou quase

           por onde ele passa
        nascem palavras
           e frases

           com frases
        se fazem asas
           palavras
        o vento leve

           o bicho alfabeto
        passa
           fica o que não se escreve


		°


                                AMOR BASTANTE


        quando eu vi você
        tive uma idéia brilhante
        foi como se eu olhasse
        de dentro de um diamante
        e meu olho ganhasse
        mil faces num só instante

        basta um instante
        e você tem amor bastante


		°


                                MALLARMÉ BASHÔ


          um salto de sapo
        jamais abolirá
          o velho poço


		°

                                 O QUE PASSOU, PASSOU?


   Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
   é que era morrer.
Morria gente todo dia,
   e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
   que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
   Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
   E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
   Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
   lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
   Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
   uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
   O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
   Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
   que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
   Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
   Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
   A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
   Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
   a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
   Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
   Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
   de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
   O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
   Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
   Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
   Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
   E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
   inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.


		°


    minha alma breve breve
o elemento mais leve
    na tabela de mendeleiev


		°


    sirenes, bares em chamas,
carros se chocando,
    a noite me chama,
a coisa escrita em sangue
    nas paredes das danceterias
e dos hospitais,
    os poemas incompletos
e o vermelho sempre verde dos sinais


		°


                                 (AUS)


    simples
como um sim
    é simples
mente
    a coisa
mais simples
    que ex
iste
    assim
ples
      mente
de mim
    me dispo
des
    (aus)
          ente


		°


    Andar e pensar um pouco,
que só sei pensar andando.
    Três passos, e minhas pernas
já estão pensando.

    Aonde vão dar esses passos?
Acima, abaixo?
    Além? Ou acaso
se desfazem no vento
    sem deixar nenhum traço?


		°

                                 ROUND ABOUT MIDNIGHT


   um vulto suspeito
e o pulo de um susto
   à solta no peito

   no beco sem saída
caminhos a esmo
   o leque de abismos
entre um eco
   e seus mesmos


		°


   um homem com uma dor
é muito mais elegante
   caminha assim de lado
como se chegando atrasado
   andasse mais adiante

   carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
   uma coroa um milhão de dólares
ou coisas que os valha

   ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
   ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra


		°


   isso sim me assombra e deslumbra
como é que o som penetra na sombra
   e a pena sai da penumbra?


		°


   minha memória evapore
feito a água
   de uma lágrima

   minha lembrança se vá
sem deixar lembrança alguma
   em seu devido lugar

   se um dia eu esquecer
que você nunca me esquecerá


		°


                                 LUZ VERSUS LUZ


     de ilusão em ilusão
até a desilusão
     é um passo sem solução
um abraço
               um abismo
              um
               soluço
  adeus a tudo que é bom

quem parece são não é
     e os que não parecem são


		°


                                 LIMITES AO LÉU


POESIA: "words set to music" (Dante
via Pound), "uma viagem ao
desconhecido" (Maiakovski), "cernes e
medulas" (Ezra Pound), "a fala do
infalável" (Gothe), "linguagem
voltada para a sua propria
materialidade" (Jakobson),
"permanente hesitação entre som
e sentido" (Paul Valery), "fundação do
ser mediante a palavra" (Heidegger),
"a religião original da humanidade"
(Novalis), "as melhores palavras na
melhor ordem" (Coleridge), "emoção
relembrada na tranquilidade"
(Wordsworth), "ciência e paixão"
(Alfred de Vigny), "se faz com
palavras, não com ideias"
(Ricardo Reis/Fernando Pessoa), "um
fingimento deveras" (Fernando
Pessoa), "criticism of life" (Mattew
Arnold), "palavra-coisa" (Sartre),
"linguagem em estado de pureza
selvagem" (Octávio Paz), "poetry is to
inspire" (Bob Dylan), "design de
linguagem" (Decio Pignatari), "lo
imposible hecho posible" (Garcia
Lorca), "aquilo que se perde na
tradução" (Robert Frost), "a liberdade
da minha linguagem" (Paulo
Leminski)...


		°
				  

 

 

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