Horácio
ODE X
nem me pergunte
saber não presta
Leuconoe
que fim os deuses nos preparam
nem arrisque
números de Babel
como se fosse o máximo - o que vier: fature
se o Pai te concedeu vários invernos
ou o último
agora o mar tyrrheno cepilha pedras de naufragar
filtre o vinho
sorva os coos
prazo breve
corta
a espera
a era já era
antes do tempo de dizer
estamos conversados
pega este dia
crer no próximo
não vale um nihil
Ludovico Ariosto
ELEGIA II
de minha negra pena em parte de ouro
muitos me vieram perguntar com ira
o oculto senso, calei meu tesouro
quero que sempre em mim se indefira
nem por força nem por filtro de fadas
jamais de mim terão senão mentira
deus como em tantas outras empreitadas
providência mostra quando enfia
coração em nossas partes mais vedadas
aí secretos pensamentos cria
bloqueia a estrada e não revela a cena
por causa dessa gente que me espia
ornada de ouro a negra minha pena
cem vezes bem diversa eu a trajei
para que todos a vissem amena
mas calo a quanta altura a elevarei
nem quero que se saiba, o quanto possa,
que gozos tenha, que dores lhe dei
se disserem que é teimosia a nossa
direi que sois soberbos e inimigos
e grande descortesia é a vossa
não ouvistes aquilo dos antigos
que de tanto seguir trilha secreta
tiveram merecidos seus castigos?
a ave peito pardo e asa preta
foi dona antes de ser gavião
por muita militância indiscreta
o que se oculta espiar é malsão
e servir vos devia de antenas
aquilo de Tirésias e Acteão
a um tirou a vista a deusa Atenas
do outro serve aos cães a deusa Diana
banquete feito de sua carne apenas
em pleno banho descobrir-se plana
a tal ponto a diva nua irrita
que se vinga daquele que a profana
nem é outro o motivo que me agita
que queiram ver além do meu roupão
qual é meu coração quando palpita
valor daquelas donas tenho não
nem crueza para fazer dano
qual fizeram a Tirésias e Acteão
bem vos digo que faz papel tirano
quem não respeita o véu do meu decoro
e arde por interpretar todo o arcano
desta minha negra pena em parte de ouro
Antonio Malatesti
(anagrama: Amostante Latone ou Aminta Setaiuolo) de A ESFINGE (ENIGMAS)
eu vi em terra um homem fazer dona
depois de uma tela ter por terra
e de mostrar, por homem, a terra
sob terra tela e sobre terra dona
não era mais que sombra enfim a dona
mais que sombra e que tela enfim a terra
quem vive de sombra e tela na terra
é quem fazia em tela sombra à dona
tal força com sombras tinha este homem
que transformava dona, terra e tela
no loiro metal que contenta ao homem
quero ver se é possível que uma tela intrincada,
destrinchar saiba um homem
que diga quem a dona, a terra, a tela
Giovanni Boccaccio
das RIME
roto o martelo rota a bigorna
que antes fabricavam as doces rimas
rotos os foles rotas as limas
a oficina toda se transtorna
o fogo ao carvão não mais retorna
que punha em fusão as matérias-primas
com que formando obras pouco opimas
cantei do falso amor que nos amorna
destarte cessa a minha vaga pena
de dar fôlego a coisas doidivanas
e para arte assim minhas pestanas
à flor soberana das soberanas
que vence todas como o ouro à galena
tratarei porém com honra extraterrena
Allen Ginsberg
SOBRE A OBRA DE BURROUGHS
O método tem que ser carne viva
e não vestimenta simbólica,
visões reais & prisões reais
como as vemos de vez em quando.
Prisões e visões apresentadas
com raras descrições
correspondendo exato àquelas
de Alcatraz e Rose.
Um lanche nu é natural para nós,
comemos sanduíches de realidade.
Mas alegorias são papa mais fina.
Nao esconda a loucura.
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