[4] MODELOS DE SONETO EM VINICIUS (E OUTROS)
Na obra de Vinicius se patenteia definitivamente a verdadeira face do
soneto brasileiro contemporâneo. Valendo-se da privilegiada perspectiva
histórica, por sobre a qual tinha a panorâmica visão dum Corcovado, o
Poeta incorporou traços de diversos períodos e movimentos literários,
quer na temática quer no formato razão pela qual seus sonetos
consubstanciam um autêntico compêndio do gênero. Desde o lirismo mais
sentimental (tipicamente romântico) até a carnalização carnavalizada
(tipicamente modernista), passando pelo épico politizado e pelo satírico
filosofal, sua temática é universalmente abrangente; na forma, praticou
desde o modelo clássico (camoniano) até as experimentações modernas,
decorando o templo parnasiano com interiores barrocos nunca abrindo
mão, todavia, do rigor métrico, rímico e (sendo o músico que foi)
rítmico. Abaixo seleciono exemplos dos moldes mais freqüentes no
repertório viniciano, os quais devem servir de paradigma a todos os
poetas que, na atualidade, pretendam cultivar o soneto no limite de suas
possibilidades. Adiciono ilustrativamente algumas alternativas
experimentadas por outros autores, cobrindo praticamente todo o espectro
de variações comportadas (ou malcomportadas) pelos catorze versos, a
saber:
[4.1] MODELO 1: CAMONIANO PAR
Com quatro rimas, é de todos o mais belo e difícil. Quanto menos rimas,
mais versos na mesma rima. Portanto, um complicador a mais desafiando a
habilidade do poeta. O exemplo mais clássico (em decassílabo heróico) é
o 19 de Camões, rimando em ABBA ABBA CDC DCD, que Vinicius também
praticou magnificamente:
SONETO 19 [Camões]
Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente,
Repousa lá no céu eternamente,
E viva eu cá na terra sempre triste.
Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente,
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor, que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te;
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.
SONETO À LUA [Vinicius de Moraes]
Por que tens, por que tens olhos escuros
E mãos lânguidas, loucas e sem fim
Quem és, que és tu, não eu, e estás em mim
Impuro, como o bem que está nos puros?
Que paixão fez-te os lábios tão maduros
Num rosto como o teu criança assim
Quem te criou tão boa para o ruim
E tão fatal para os meus versos duros? (*)
Fugaz, com que direito tens-me presa
A alma que por ti soluça nua
E não és Tatiana e nem Teresa:
E és tampouco a mulher que anda na rua
Vagabunda, patética, indefesa
Ó minha branca e pequenina lua! (*)
(*) Observe-se que o icto HERÓICO (sexta e décima sílabas) não é
necessariamente mantido em todos os versos: tal como fizera Camões em
outros momentos, Vinicius abre aqui duas exceções para o verso SÁFICO,
acentuado na quarta, oitava e décima sílabas.
[4.2] MODELO 2: CAMONIANO ÍMPAR
Com cinco rimas, é ligeiramente mais flexível mas não menos difícil. Nos
quartetos a rima continua abraçada (ABBA ABBA), mas nos tercetos o
esquema muda para CDE CDE (admitindo embaralhamentos destas posições),
que Vinicius pratica, por exemplo, em CDE DEC:
SONETO 29 [Camões]
Sete anos de pastor Jacó servia
Labão, pai de Raquel, serrana bela:
Mas não servia ao pai, servia a ela,
Que a ela só por prêmio pretendia.
Os dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la:
Porém o pai, usando de cautela,
Em lugar de Raquel lhe deu a Lia.
Vendo o triste pastor que com enganos
Assi lhe era negada a sua pastora,
Como se a não tivera merecida;
Começou a servir outros sete anos,
Dizendo: Mais servira, se não fora
Para tão longo amor tão curta a vida.
SONETO DE FIDELIDADE [Vinicius de Moraes]
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
[4.3] MODELO 3: PARNASIANO ESTREITO
Com cinco ou sete rimas, mantém o deca camoniano mas inverte as
abraçadas no segundo quarteto (ABBA BAAB), ou não repete no segundo
quarteto as rimas do primeiro (ABBA CDDC), ou cruza rimas nos quartetos
(ABAB ABAB ou ABAB BABA ou ABAB CDCD), liberando ao máximo o
posicionamento nos tercetos. Exemplos de esquemas em ABAB ABAB CCD EED
(cinco rimas) e ABBA CDDC EEF FGG (sete rimas):
SONETO DO MAIOR AMOR [Vinicius de Moraes]
Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.
E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.
Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer e vive a esmo
Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.
[PRIMEIRO] SONETO DE MEDITAÇÃO [Vinicius de Moraes]
Mas o instante passou. A carne nova
Sente a primeira fibra enrijecer
E o seu sonho infinito de morrer
Passa a caber no berço de uma cova.
Outra carne virá. A primavera
É carne, o amor é seiva eterna e forte
Quando o ser que viveu unir-se à morte
No mundo uma criança nascerá.
Importará jamais por quê? Adiante
O poema é translúcido, e distante
A palavra que vem do pensamento
Sem saudade. Não ter contentamento.
Ser simples como o grão de poesia.
E íntimo como a melancolia. (**)
(**) Observe-se que na chave de ouro do soneto acima o poeta subverte
novamente as tônicas do deca, que neste caso não é heróico nem sáfico
recurso permissível apenas acidentalmente, quando o sonetista interfere
com a absoluta segurança dum Vinicius.
[4.4] MODELO 4: PARNASIANO LARGO
Com cinco ou sete rimas, esquematiza-se optativamente nas mesmas
condições do modelo precedente, trocando apenas o decassílabo pelo
dodecassílabo (alexandrino). Exemplos em ABAB ABAB CDC EDE (cinco rimas)
e ABAB CDDC EFE FGG (sete rimas):
PAIXÃO E ARTE [Jorge de Lima]
Ter Arte é ter Paixão. Não há Paixão sem verso...
O Verso é a Arte do Verbo o ritmo do som...
Existe em toda a parte, ao léu da Vida, asperso
E a Música o modula em gradações de tom...
Blasfemador, ardente, amoroso ou perverso
Quando a Paixão que o gera é Marília ou Manon...
Mas é sempre a Paixão que o faz vibrar diverso:
Se o inspira o Ódio é mau, se o gera o Amor é bom...
Diz a História Sagrada e a Tradição nos fala
Dum amor inocente, (o mais alto destino):
A Paixão de Jesus, o perdão a Madala.
Homem, faze do Verso o teu culto pagão
E canta a tua Dor e talha o alexandrino
A quem te acostumou a ter Arte e Paixão.
SONETO DA MULHER AO SOL [Vinicius de Moraes]
Uma mulher ao sol eis todo o meu desejo
Vinda do sal do mar, nua, os braços em cruz
A flor dos lábios entreaberta para o beijo
A pele a fulgurar todo o pólen da luz.
Uma linda mulher com os seios em repouso
Nua e quente de sol eis tudo o que eu preciso
O ventre terso, o pêlo úmido, e um sorriso
À flor dos lábios entreabertos para o gozo.
Uma mulher ao sol sobre quem me debruce
Em quem beba e a quem morda e com quem me lamente
E que ao se submeter se enfureça e soluce
E tente me expelir, e ao me sentir ausente
Me busque novamente e se deixa a dormir
Quando, pacificado, eu tiver de partir...
[4.5] MODELO 5: MODERNO BRANCO
A ausência de rima é contrabalançada pela rigidez métrica. Exemplo em
deca heróico:
ARMORIAL (XIV) [Paulo Bomfim]
Nordestes holandeses que procuro
Nas casas-grandes que hoje trago na alma,
Socorros mamelucos desfilando,
Em calçadas de seda e porcelana.
Ruivos combates, retiradas brancas, (***)
Sangue perdido sobre canaviais,
Calções de couro entre chapéus de pluma, (***)
Saudades altiplanas em recifes.
Nordestes do meu sul irremediável,
Senhor de dois mil arcos fui outrora,
Socorrendo as olindas senhoriais...
Hoje sou só. Trezentos desenganos
Cobriram de ferrugem meus guerreiros.
E empurraram sobrados sobre mim.
(***) Note-se que também no deca branco o acento heróico pode abrir
exceções, num ou noutro verso, para o ritmo sáfico.
[4.6] MODELO 6: MODERNO LIVRE
A ausência de metro e rima parece facilitar, mas deve ser compensada
pela extrema destreza do poeta ao trabalhar cada palavra. Exemplo:
O FILHO PRÓDIGO [Murilo Mendes]
À beira do antiuniverso debruçado
Observo, ó Pai, a tua arquitetura.
Este corpo não admite o peso da cabeça...
Tudo se expande num sentido amargo.
Lembro-me ainda que me evocaste
Do teu caos para o dia da promessa.
O fogo irrompia das mulheres
E se floria o sol de girassóis.
Uma única vez eu te entrevi,
Entre humano e divino inda indeciso,
Atraindo-me ao teu íngreme coração.
Para outros armaste o teu festim:
E da tua música só vem agora
O soluço da terra, dissonante.
[4.7] MODELO 7: ALTERNATIVO PARNASIANO
Ao parnasiano convencional (modelos 3 e 4), de cinco a sete rimas,
poder-se-ia aplicar, no posicionamento estrófico, a mesma liberdade
experimentada no posicionamento das rimas. Assim, em lugar de dois
quartetos seguidos de dois tercetos (4/4/3/3), teríamos outras
disposições: 3/3/4/4, 3/4/3/4, 4/3/4/3, 3/4/4/3, 4/3/3/4. Se a tal
redivisão somarmos as licenças modernas (verso branco ou livre)
amplia-se o campo experimental (e com isso o risco de desfigurar demais
o soneto). Exemplos de experiência parnasiana em 3/3/4/4 e respectiva
reciclagem pós-moderna, ambas preservando a integridade do soneto e o
alto padrão poético:
O DESTINO [Luís Delfino]
O rio vem do mar, para o mar corre:
Quem sabe por que nasce e por que morre?
Sabe o sol que ele faz a madrugada?
Quem fez de um grão de areia este universo?
Não podia fazê-lo outro e diverso?
Pode cousa qualquer sair do nada?
Por que nos fez assim com fome e sede,
Selvagem, como a fera da floresta,
E não pôs tudo numa eterna festa?
Quem deu a vida, não daria a rede
Em que se embala o Índio do arvoredo,
Mas que ele arranca ao tronco com trabalho?
Ruge em torno de nós a dor e o medo.
Nada vales, Helena, e eu nada valho?!...
SETE ESTUDOS PARA A MÃO ESQUERDA (III) [Paulo Henriques Britto]
Sou uma história, a voz que a conta, e o imenso
desejo de contar outra diversa,
que porém não deixasse de ser essa.
Palavra que não digo e que não penso
e no entanto escrevo eu sou você?
(Mas não era isso o que eu ia dizer,
e sim uma outra coisa, obscura e bela,
que sei, com uma certeza visceral,
ser a verdade última e total
e só por isso já não creio nela,
pois a certeza, tal como a memória,
é por si só demonstração sobeja
da falsidade do que quer que seja )
Mas isso já seria uma outra história.
[4.8] MODELO 8: ALTERNATIVO INGLÊS
Se, ao invés de dividir (ou redividir) o soneto em dois quartetos e dois
tercetos, redistribuirmos os catorze versos em 4/4/4/2, temos o chamado
"modelo inglês" (consagrado por Shakespeare), pouco praticado no Brasil.
Exemplo em deca rimando em ABAB CDCD EFEF GG:
TRANSFIGURAÇÃO (I) [Paulo Bomfim]
Venho de longe, trago o pensamento
Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonias.
Provenho desses mares esquecidos
Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.
Retenho dentro da alma, preso à quilha
Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha
Onde sonham morrer os albatrozes...
Venho de longe, a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.
[4.9] MODELO 9: ALTERNATIVO REDIVIDIDO
Se, ao invés de quatro estrofes, fragmentarmos o soneto em mais tercetos
ou dísticos, a experimentação ganha novos horizontes. O importante é
preservar algum critério, métrico ou rímico, para evitar a desintegração
conceitual do poema, cuja proposta temática deve se articular à
estrutura formal. Entre outras possíveis redistribuições estróficas, a
solução abaixo foi difundida por Paulo Henriques Britto em sete rimas e
pesquisada por mim, que a compactei em cinco rimas. Um dos quartetos é
substituído por dois dísticos (abrindo e fechando o soneto), enquanto os
tercetos se separam para intercalar o quarteto restante no centro do
poema: 2/3/4/3/2. Em Britto o esquema rímico fica AA BCB CDED FEF GG; em
mim, AA BCB DEED BCB AA:
[de Paulo Henriques Britto]
Tão limitado, estar aqui e agora,
dentro de si, sem poder ir embora,
dentro de um espaço mínimo que mal
se consegue explorar, esse minúsculo
império sem território, Macau
sempre à mercê do latejar de um músculo.
Ame-o ou deixe-o? Sim: porém amar
por falta de opção (a outra é o asco).
Que além das suas bordas há um mar
infenso a toda nau exploratória,
imune mesmo ao mais ousado Vasco.
Porque nenhum descobridor na história
(e algum tentou?) jamais se desprendeu
do cais úmido e ínfimo do eu.
SONETO 418 SENSORIAL [Glauco Mattoso]
Sensíveis todos somos, mais ou menos,
mas seres sensitivos, só os pequenos.
Sentir é propriedade material.
A gente sente a forma, o peso, a cor,
aromas e calores, doce ou sal.
Filósofos entendem que a verdade
não passa de ilusão. Pensamos nela
apenas como quem aspira, anela:
delírios dum recluso atrás de grade.
Sentir é perceber o que é real,
mas é também querer, seja o que for,
alguém ou algo, intenso, especial.
Se somos sensuais, quem sabe é Vênus.
Serão sentimentais somente os plenos.
[4.10] MODELO 10: SONETILHO
Normalmente o soneto tem verso de dez ou doze sílabas, sendo os metros
curtos (geralmente redondilhas) próprios da trova, da glosa ou de outros
gêneros mais populares (mais fáceis de transmitir oralmente) como a
poesia de cordel. Entretanto, nada impede que o sonetista adote o verso
de pequeno fôlego, desde que sua criatividade supere a limitação. Para
evitar o lugar-comum da redondilha maior (sete sílabas) ou menor (cinco
sílabas), escolhi exemplos em versos de seis (heróico quebrado) e nove
sílabas:
SONETILHO DO FALSO FERNANDO PESSOA [Carlos Drummond de Andrade]
Onde nasci, morri.
Onde morri, existo.
E das peles que visto
muitas há que não vi.
Sem mim como sem ti
posso durar. Desisto
de tudo quanto é misto
e que odiei ou senti.
Nem Fausto nem Mefisto,
à deusa que se ri
deste nosso oaristo,
eis-me a dizer: assisto
além, nenhum, aqui,
mas não sou eu, nem isto.
A PINTA DELA [Raul Pederneiras]
Se tua fronte meiga descansas,
Pondo em realce negro botão,
Da cor trevosa de tuas tranças,
Nasce-me um ponto... de exclamação!
Ponto de treva! Doces lembranças
Trazes-me à alma, num turbilhão;
Dulçoso ponto das esperanças
Que me despontam no coração.
Liliputiano, grácil enfeite,
Lembra uma pulga num mar de leite,
A tua pinta que o rosto aninha.
Se o Almirante Colombo, um dia,
Visse teu rosto, certo diria:
"Santa Maria!... Que pinta, niña!"
[Texto e seleção de GLAUCO MATTOSO]
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