O SONETO NARRATIVO
Que as fronteiras entre prosa e poesia são meramente formais e
convencionais nem cabe discutir. No fundo e de fato, importa a história
que se conta, pois um grande romance pode ser moldado em versos (caso
dos Lusíadas) ou um poema apresentado em prosa (caso de IRACEMA); mas em
se tratando de soneto o formato compacto é compatível com o conto ou a
fábula, gêneros em que os sonetistas têm a oportunidade de se
notabilizar como ficcionistas. Abaixo colecionei grandes "causos"
contados (ou recontados, ou ainda racontados) em forma de soneto, sejam
os enredos/personagens verídicos ou fantasiosos. [GM]
À MAMELUCA MARIA BÁRBARA [Tenreiro Aranha]
Se acaso aqui topares, caminhante,
Meu frio corpo já cadáver feito,
Leva piedoso, com sentido aspeito,
Esta nova ao esposo aflito, errante.
Dize como de ferro penetrante
Me viste, por fiel, cravado o peito,
Lacerado, insepulto, e já sujeito
O tronco feio ao corvo altivolante.
Que dum monstro inumano, lhe declara,
A mão cruel me trata desta sorte,
Porém, que alívio busque à dor amara,
Lembrando-se que teve uma consorte
Que, por honra da fé que lhe jurara,
À mancha conjugal prefere a morte.
DOR [Fernando Meireles]
Oh! quando a vi no leito muito quieta,
A boca escancarada, olhos cerrados,
Molhou-me o rosto a lágrima discreta,
Senti meus sonhos todos soterrados.
Rezei, contrito, à santa predileta,
Mas inerte ficou dedos mirrados.
Plasma o destino intransigente esteta
O coração dos entes desgraçados.
Rolam meus dias, dolorosamente,
Nesta aflição que me tortura e chaga
O espírito abatido e a alma descrente.
A luz da vida para mim se apaga,
E a dor busco aplacar, inutilmente:
Enche-se dela esta existência vaga.
MÃE TERESA [Adelmar Tavares]
Morava neste sítio abandonado,
Perto da minha casa, "Mãe Teresa";
No seu rostinho velho e descarnado
Havia uns traços de imortal beleza.
Moça trouxera o bairro enamorado,
Trovadores chamaram-lhe princesa!
Não bebeu nunca o vinho do Pecado
Nem na alma trouxe uma paixão acesa.
Dá que eu possa beijar-te as mãos piedosas!
Por esta vida muito padeceste,
Deitando bênçãos e plantando rosas!
Tu, que a bondade dos arcanjos tinhas,
Levas na morte este fulgor celeste
Das que se partem virgens e velhinhas!
SANTA [Hermeto Lima]
Essa que passa por aí, senhores,
De olhos castanhos e fidalgo porte,
É a princesa ideal de meus amores
E a mais franzina pérola do Norte.
Contam, que numa noite de esplendores,
A essa que esmaga o coração mais forte,
Hinos cantaram e jogaram flores
As estrelas em mágico transporte.
Acreditais talvez ser fantasia,
Eu vos direi que não... Em certo dia,
Quando Ela entrou na festival Capela,
Eu vi a Virgem mergulhada em pranto,
E o Cristo de marfim fitá-la tanto
Como se fosse apaixonado dela.
VIÚVA [Rodrigues de Carvalho]
Há na ametista roxa das olheiras
Dessa doce e franzina criatura,
Um ocaso de mística doçura,
O vestígio aromal das laranjeiras.
Ri esse riso angelical das freiras
Na alvorada mortiça da clausura...
E, quando mira a célica planura,
Segue, chorando, as nuvens forasteiras.
Bela, no entanto... pálida, vestida
De um tecido crivado de martírios
Sob um fundo de aurora anoitecida.
Enchendo os olhos do palor dos círios,
Vai, bela e triste, sepultada em vida,
Trajando a roxa viuvez dos lírios...
O REBELDE [Lúcio de Mendonça]
É um lobo do mar: numa espelunca
Mora, à beira do Oceano, em rocha alpestre;
Ira-se a onda e, qual tigre silvestre,
De mortos vegetais a praia junca.
E ele, olhando como um velho mestre
O revoltoso que não dorme nunca,
Recurva o dedo como garra adunca,
Sobre o cachimbo, único amor terrestre,
E então assoma-lhe um sorriso amargo...
É um rebelde também, cérebro largo,
Que odeia os reis e os padres excomunga.
À noite, dorme sem rezar: que importa?
Enorme cão fiel, guarda-lhe a porta
O velho mar soturno que resmunga.
A PRETA NA CABANA [Luís Delfino]
Esta preta que vês junto à cabana,
Velha, gasta, pedindo-te uma esmola,
Teve na terra benfazeja a escola
Do trabalho, do amor, da luta humana.
Deixou a pátria tórrida africana
Pelo Brasil, onde é soberba a flora;
E, no país, em que ela é livre agora,
Viveu escrava e a um tempo soberana.
Misturou o seu sangue ao nosso sangue,
O seu suor, no campo, ao suor da aurora,
Deu força e alento ao nosso corpo langue.
Helena, inda hoje embala-nos nas sestas,
Como ria no lar conosco outrora,
E eram suas também as nossas festas...
O AFRICANO [Mário de Alencar]
Costuma estar ao sol, de pé, junto à porteira
Da fazenda, onde, escravo, arrastou toda a vida.
De um dos olhos é cego, e já do outro a cegueira
Lhe vai grudando à face a pálpebra caída.
Do corpo seminu, sob a pele entanguida
Se esboça a secular ossada quase inteira.
E a aparência ele tem, esguia e denegrida,
De um tronco solitário em queimada clareira.
Dizem que ensandeceu de dor no mesmo dia
Em que morreu seu dono; outros, de nostalgia;
Outros, que é feiticeiro e simula mudez,
Porque, às vezes, lhe vem súbita vida estranha,
E ele pula e descanta e risos arreganha,
E ágil ginga no jogo ao batuque dos pés.
O PALHAÇO [Padre Antônio Tomás]
Ontem viu-se-lhe em casa a esposa morta
e a filhinha mais nova tão doente!
Hoje o empresário vai bater-lhe à porta,
que a platéia o reclama impaciente.
Ao palco em breve surge... pouco importa
o seu pesar àquela estranha gente.
E ao som das ovações que os ares corta,
trejeita e canta e ri nervosamente.
Aos aplausos da turba ele trabalha
para esconder no manto em que se embuça
a cruciante angústia que o retalha.
No entanto, a dor cruel mais se lhe aguça
e enquanto o lábio trêmulo gargalha,
dentro do peito o coração soluça.
A PARTIDA [Silva Ramos]
Tenho-a presente, como agora, aquela
Dura noite da triste despedida;
Da aragem levemente arrefecida
Da lancha enfuna a desfraldada vela.
Distante, como em fundo de aquarela,
Some-se a mansa vila adormecida,
E a branda luz dos astros refletida
No rio as águas límpidas estrela.
Cena viva que a mente me descreve,
Dos amigos em grupos pelo cais
Vozes perpassam num sussurro leve;
Trocam-se as doces expressões finais...
E, enquanto os lábios dizem até breve!
Os corações murmuram nunca mais!
FIM [Paulo Peregrino]
Amanhecera... A festa despertara
Um novo encanto ingênuo, um desvario
Naquela gente a comprimir-se, para
Vestir de riso o casarão sombrio.
Afastei-me. E um desejo quase pio
Impeliu-me na antiga estrada clara
E voltei ao salão. Voltei, mas, vi-o
Sem mais ninguém: a festa terminara...
Havia, apenas, o silêncio dessas
Grandes reuniões do tempo florentino
Desfeitas dos seus risos e promessas.
Não me pude conter. E, a custo, a calma
Rompi como um soluço de violino
Quando estala e arrebenta as cordas da alma...
SOZINHA [Raimundo Correia]
É tarde, e eles não vêm! O dia finda,
E, extinto archote, tomba o sol... À estrada
Lança os olhos, ansiosa, e não vê nada!
Recolhe-se à cabana, e espera ainda...
Cerra-se a noite em toda a curva infinda
Dos céus... E eles não voltam da caçada!
E ela tão só!... Já pende fatigada,
Cheia de sono, a sua fronte linda.
Dorme. Alta noite acorda. Os cães latiam
Fora, e julgou ouvir, confusamente,
Como um tropel, na solitária rua...
Antojou-se-lhe logo que seriam
Eles, e a porta abriu... Ninguém! Somente,
Por trás da serra, ia-se erguendo a lua...
FLOR AGRESTE [Souza Pinto]
A casinha no alto da colina
Esconde-se entre os galhos da mangueira,
Fica ao lado uma roça pequenina
Onde cresce abundante macaxeira.
Uma gentil morena e que mão fina!
Assentada da porta na soleira,
Agita com paciência feminina
Os bilros da almofada costumeira.
Lá no fundo uma velha entre as galinhas
Espalha a refeição de espaço a espaço
Em porções econômico-mesquinhas.
Chega um rapaz de foice sob o braço,
Diz à moça: "Bons dias, Mariquinhas"
E atira-lhe uma rosa no regaço.
À HORA DO ALMOÇO [Luís Delfino]
Pelo sapê furado da palhoça
Milhões de astros agarram-se luzindo;
O pai, há muito, madrugou na roça:
A mãe prepara o almoço. O sol é lindo.
Canta a cigarra; o porco cheira; engrossa
O fumo dos tições; anda zunindo
À porta um marimbondo; e fazem troça
As crianças com um ramo o perseguindo.
Correm, chilram, vozeiam, tropeçando
Num velho pote; a mãe, zangada, ralha.
A avó lhes lança o olhar inquieto e brando.
No chão um galo ajunta o milho e o espalha,
Enquanto a um canto, as penas arrufando,
Põe a galinha num jacá de palha.
ESTRELA DO NATAL [Heli Menegale]
Foi numa noite de Natal como esta.
O pinheiro... os presépios... a ciranda
Da criançada que cantava em festa
E a luz das velas, colorida e branda...
Vi-a cantando e cirandando lesta,
Loura e da graça de uma aldeã da Holanda,
Cabelos de ouro voando-lhe na testa
E um lindo laço cor-de-rosa à banda...
Vi-a, e bastou que a visse, bastou vê-la,
Para eu hoje a trazer sempre na mente,
A minha doce e fulgurante estrela.
E ela, como os reis-magos da Escritura,
Guia os meus passos vagarosamente
Para a Belém do Sonho e da Ventura!
LÁGRIMAS DE CERA [Raul Machado]
Quando Estela morreu, choravam tanto!
Chovia tanto nessa madrugada!
Era o pranto dos seus, casado ao pranto
Da Natureza mãe desventurada!
Ninguém podia ver-lhe o rosto santo,
A fronte nívea, a pálpebra cerrada,
Que não sentisse, logo, em cada canto
Dos olhos, uma lágrima engastada!
Ai! não credes, bem sei, porque não vistes!
Mas quando ela morreu, chorava tudo!
Até dois círios, lânguidos e tristes,
Acendidos à sua cabeceira,
Iam chorando, no seu pranto mudo,
Um rosário de lágrimas de cera!
CARTA DE PETRÓPOLIS [Salomão Jorge]
São quatro horas e cinco. Madrugada.
Desolado te escrevo, meu amigo,
Há dez minutos, ela, a tua amada,
Morreu na doce paz do seu abrigo.
Como o lírio fenece, imaculada
E linda feneceu, beijando o antigo
Retrato que lhe deste, desbotada
Gravura, o seu ideal e o seu castigo.
Lembranças implorou-me para dar-tas,
E orou para que vivas sem escolhos,
Naquela hora tristíssima de ruço.
E morreu abraçada às tuas cartas,
Teu vulto! a última sombra dos seus olhos!
E o teu nome! o seu último soluço!
AS ESTÁTUAS [Artur Azevedo]
No dia em que na terra te sumiram,
Eu fui ver-te defunta sobre a eça,
Fechados para sempre oh, sorte avessa!
Aqueles olhos que me seduziram.
À luz do sol uma janela abriram,
E o jardim avistei onde, oh, condessa,
Uma noite perdemos a cabeça,
E as estátuas de mármore sorriram...
Saíste por aquela mesma porta
Onde outrora os teus lábios me esperaram,
Cheios do amor que ainda me conforta.
Quando o jardim saudoso atravessaram
Seis homens com o esquife em que ias morta,
As estátuas de mármore choraram!
POBRE AMOR [Aluísio Azevedo]
Calcula, minha amiga, que tortura!
Amo-te muito e muito, e, todavia,
Preferira morrer a ver-te um dia
Merecer o labéu de esposa impura!
Que te não enterneça esta loucura,
Que te não mova nunca esta agonia,
Que eu muito sofra porque és casta e pura,
Que, se o não foras, quanto eu sofreria!
Ah! Quanto eu sofreria se alegrasses
Com teus beijos de amor, meus lábios tristes,
Com teus beijos de amor, as minhas faces!
Persiste na moral em que persistes.
Ah! Quanto eu sofreria se pecasses,
Mas quanto sofro mais porque resistes!
ESTUDO ANATÔMICO [Fontoura Xavier]
Entrei no anfiteatro da ciência,
Atraído por mera fantasia,
E aprouve-me estudar anatomia,
Por dar um novo pasto à inteligência.
Discorria com toda a sapiência
O lente numa mesa onde jazia
Uma imóvel matéria, úmida e fria,
A que outrora animara humana essência.
Fora uma meretriz; o rosto belo
Pude tímido olhá-lo com respeito
Por entre as negras ondas do cabelo.
A convite do lente, contrafeito,
Rasguei-a com a ponta do escalpelo
E não vi coração dentro do peito!
PARTUS POST-MORTEM (à memória de Ciro Peixoto) [Guterres Casses]
Jaz, em cama, a gemer, a parturiente,
Nas contorções insólitas da dor,
Sentindo nessa agrura impenitente
A primeira eclosão de seu amor...
Mil desvelos a cercam docemente,
Num crescendo de anseio e de temor,
Porém, ela se estorce de repente
E morre num espasmo aterrador!
E o médico, tateando seus contornos,
Vai buscar a criança aos membros mornos
Da genitora morta e contorcida!...
Que a Ciência sabe achar, serena e forte,
Dentro da noite tétrica da Morte,
A rútila alvorada de uma Vida!
A TRISTEZA MAIOR [Benedita de Melo]
Ia ser mãe ou ser mulher, talvez;
Indizível anseio a dominava.
Veio-lhe belo o filho que esperava
Em róseo dia de ridente mês.
Pela primeira e derradeira vez
A criança nos seus braços apertava;
E na falta que ao anjo ela deixava,
Vi quanta falta minha mãe me fez.
Nesse momento de aflições sem termos,
Todos os vendavais, todos os ermos
Previ em torno ao ser por quem sofria.
E no meu modo de sentir ou ver,
Eu não chorei a mãe que ia morrer,
Chorei antes o filho que nascia.
ANJO ENFERMO [Afonso Celso]
Geme no berço enferma a criancinha,
Que não fala, não anda e já padece...
Penas assim cruéis por que as merece
Quem mal entrando na existência vinha?!
Ó melindroso ser, ó filha minha,
Se os céus ouvissem a paterna prece
E a mim o teu sofrer passar pudesse,
Gozo me fora a dor que te espezinha.
Como te aperta a angústia o frágil peito!
E Deus, que tudo vê, não ta extermina,
Deus que é bom, Deus que é pai, Deus que é perfeito...
Sim... é pai, mas a crença no-lo ensina:
Se viu morrer Jesus, quando homem feito,
Nunca teve uma filha pequenina!...
A MINHA FILHA ELEONORA [Maviael do Prado]
Quando te ouço, chorando, minha filha,
Fico, de acerba pena e viva mágoa,
Com os meus profundos olhos rasos d'água,
Todo o meu ser da tua dor partilha!
Oh! tormentosa dor! No peito afogo-a
Para ver se ela fica e não te humilha...
Quando de bem estar teu rosto brilha
Sei cantar-me feliz de frágoa em frágoa...
Ergo os olhos aos céus, em preces puras:
Fazei que eu viva em clamorosa guerra,
Mas enchei minha filha de venturas!
Atendei-me, Senhor de graça infinda:
Posso eu chorar que já sorri na terra,
Mas minha filha não sorriu ainda...
UMA LEMBRANÇA [Úrsula Garcia]
Eu quis levá-la ao cemitério, um dia,
Mas em casa disseram: "Tão criança!"
"É tão longe!... É tão triste!..." Eu insistia:
Não sabe o que é tristeza, ela, e nem cansa!
A manhã é tão linda! O sol radia,
O ar é tão puro, a brisa fresca e mansa...
É um passeio ao campo. Não faria
Mal algum visitar quem lá descansa...
E eu pensava: É melhor ir caminhando
Com seus pezinhos, rindo, conversando,
Voltar da cor das rosas que levou...
Não foi comigo... Mas lá foi levada
Numa manhã de sol... muda, gelada,
Lívida, inerte... E nunca mais voltou.
ELVIRA E HELOÍSA [José Mariano de Oliveira]
É aqui, no estreito espaço onde vieste
Sonhar na eterna noite sossegada,
Que ora dormes teu sono, acompanhada
Daquela mesma que, ao partir, me deste.
Mortas tão cedo! Como tu morreste,
Da vida no começo da jornada,
Nossa filha, entre nós tão desejada,
Desceu também à noite a que desceste!
Iguais na idade e na meiguice tanta!
Ela me acompanhava na amargura
Que desde a tua morte que quebranta.
Tua imagem com a dela se mistura...
Vejo-vos ambas, cada qual mais santa,
Amo-vos ambas, cada qual mais pura.
PAQUITA E COTINHA [Inácio Raposo]
Eu tive uma irmãzinha, a que morreu criança,
Mais loira e mais gentil que as loiras alvoradas;
Nos olhos infantis a luz serena e mansa
Tinha o brilho ideal das brancas madrugadas.
E morreu a sorrir. Na lousa em que descansa
Vão gemer, à tardinha, as rolas concentradas...
Viveu como o brilhar da estrela da esperança;
Morreu como o rubor das rosas perfumadas.
Foi-se, alada, a primeira e resta-me a segunda,
Alegre rapariga, olímpica, jocunda,
Como os sonhos do amor e os risos da bonança.
Qual será mais feliz? Não sei como decida...
Se a virgem donairosa a despertar na vida,
Se o loiro querubim que adormeceu criança.
CANSAÇO [Filinto de Almeida]
A velhice é cansaço... E esse cansaço
Não nos vem de trabalho ou movimento...
O que ora faço é demorado e lento
E acho mal feito o pouco que ainda faço.
Tudo me cansa: até o pensamento!
Já pouquíssimo ando e arrasto o passo...
Quase sempre dorminte ou sonolento,
Vivo uma triste vida de madraço.
Nunca fui mandrião nem calaceiro,
Nem também muito ativo, é bem que o diga,
Mas domei sempre a inércia, sobranceiro.
Agora, a própria inércia me castiga,
Pois se acaso repouso um dia inteiro
Esse mesmo repouso me fatiga!
AMOR DE FILHA [Segundo Wanderley]
Um pobre velho, não importa o nome,
Por um crime, talvez, crime de Estado,
Foi entregue à Justiça e condenado
À dura sorte de morrer de fome.
Mas rigores não há que amor não dome...
A visitar o pai encarcerado,
Pede a filha, e consegue, ao Magistrado
Que se condói da mágoa que a consome.
Volve um dia, mais outro e outro ainda,
Mas, apesar do bárbaro tormento,
Do delinqüente a vida não se finda...
Rasgo de amor que as almas maravilha:
O pai hauria o seu estranho alento
Nos fartos seios da extremosa filha!
PÁGINA 102 [Pedro Rabelo]
Mágoa horrenda, ânsia horrenda, ciúme horrendo
Esta mísera página continha,
E ela, por lê-la, dos seus olhos vinha,
Vinha um fio de lágrimas descendo.
Esta os seus olhos, que choravam lendo,
Mais do que as outras páginas detinha,
E àquele pranto pela angústia minha
Iam-me os versos desaparecendo...
A sua última lágrima desfê-los...
Hoje, estes mesmos pobres versos choram,
O lugar dos antigos ocupando;
E estes como os primeiros, que os seus belos,
Seus tristes olhos apagando foram
Vão-se-me agora aos poucos apagando...
QUE INSÔNIA! [Corina Rebuá]
Como faz frio neste quarto agora!
A chuva bate em cheio na vidraça.
E o relógio da igreja, de hora em hora,
Soa. Há passos na rua... E a ronda passa...
Não consigo dormir. Como demora
Esta vigília que me torna lassa!
Se abro um livro, não leio. E lá por fora
Chove. Há passos na rua... E a ronda passa...
Dormes? Não creio. Eu sei que estás velando,
Porque eu pressinto que, de quando em quando,
Vem o teu corpo fluídico e me enlaça.
O relógio da igreja está batendo.
São quatro horas. Que insônia! Está chovendo.
Ouço passos na rua... E a ronda passa...
BERÇO [B. Lopes]
Recordo: um largo verde e uma igrejinha,
Um sino, um rio, um pontilhão e um carro
De três juntas bovinas, que ia e vinha
Rinchando alegre, carregando barro.
Havia a escola, que era azul e tinha
Um mestre mau, de assustador pigarro
(Meu Deus! que é isto, que emoção a minha
Quando estas cousas tão singelas narro?)...
"Seu" Alexandre, um bom velhinho rico,
Que hospedara a Princesa; o tico-tico
Que me acordava de manhã, e a serra...
Com o seu nome de amor Boa-Esperança,
Eis tudo quanto guardo na lembrança
Da minha pobre e pequenina terra!
CIGANA [Vieira da Silva]
Era uma vez uma cigana. Um dia
Laura pediu-lhe que lhe lesse a sina
E ela, a cigana, de contente, ria
Ante a mãozinha delicada e fina.
Fita-lhe o olhar e, débil e franzina,
Linha por linha, atentamente, lia
Um futuro de rosas à menina;
Tudo o que Laura desejar podia...
E disse aos pais: "Três vezes, meus senhores,
Aquele ipê se cobrirá de flores
Para a menina se cobrir de um véu".
Laura riu-se e corou. E um ano corre,
Outro mais... e mais outro... e Laura morre...
Foi com certeza se casar no céu!
TRISTE FILOSOFIA [Carlos de Laet]
Ia Rosa vestir-se, e do vestido
Uma voz se desprende e assim murmura:
"Muitas morremos de uma morte escura,
Por que te envolva sérico tecido!"
Ia toucar-se, e escuta-se um gemido
Do marfim que as madeixas lhe segura:
"Por dar-te o afeite desta minha alvura,
Jaz na selva meu corpo sucumbido!"
Põe um colar, e a pérola mais fina:
"Para pescar-me, quantos párias, quantos!
Padeceram no mar lúgubres sortes!"
E Rosa chora: "Oh! desditosa sina!
Todo sorriso é feito de mil prantos,
Toda vida se tece de mil mortes!"
FELICIDADE [Guilherme de Almeida]
Ela veio bater à minha porta
e falou-me, a sorrir, subindo a escada:
"Bom dia, árvore velha e desfolhada!"
E eu respondi: "Bom dia, folha morta!"
Entrou: e nunca mais me disse nada...
Até que um dia (quando, pouco importa!)
houve canções na ramaria torta
e houve bandos de noivos pela estrada...
Então, chamou-me e disse: "Vou-me embora!
Sou a Felicidade! Vive agora
da lembrança do muito que te fiz!"
E foi assim que, em plena primavera,
só quando ela partiu, contou quem era...
E nunca mais eu me senti feliz!
A DRÍADA [João Ribeiro]
Dentro de um bosque nemoroso errava
Sobre um solo de trevos a mesquinha,
A dríada que eu louco procurava
Galgando montes, na loucura minha.
Mas quando eu vinha a deusa recuava,
Ia-se embora a deusa quando eu vinha.
Por ela tantas vezes eu passava,
Quantas por mim ela passado tinha.
Nisto a trompa de caça emboco... e o alento
Da tuba estruge, a dríada estremece,
Corre, do curso a cabeleira panda...
Deuses! Sabei que a fúria do instrumento
Que o vale abranda e os bosques enternece,
Não a enternece nem seu peito abranda.
CONTO TERMINAL (soneto 454) [Glauco Mattoso]
Num quarto de hospital morriam três
raquíticos, tossindo, em calafrio:
um órfão, um sobrinho e o velho tio.
De quem do fim vai ser mais cedo a vez?
O tio conserva a verve e a lucidez,
dizendo que estão todos por um fio:
"De hoje tu não passa, viu, mo fio?"
Porém suporta o órfão quase um mês.
Um deles já delira, o tal sobrinho,
que sonha estar curado, toma o trem,
do sítio onde nasceu põe-se a caminho.
Chegando, encontra os outros dois no Além.
Festejam e se abraçam com carinho.
No leito, os mortos rindo encontra alguém.
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