O SONETO NATURAL
Quando se trata de retratar a Natureza e a intenção do poeta é passar
uma noção de paz e tranqüilidade, o cenário costuma ser uma paisagem
bucólica, na qual flores e pássaros sobressaem. Se, por outro lado, o
poeta quer transmitir angústia e inquietação, o mar agitado é a melhor
pedida. Seja para representar a vontade de Deus, seja para exprimir
sentimentos humanos (especialmente quando o poeta está apaixonado ou
saudoso), o fato é que fenômenos biológicos ou físicos são poderoso
instrumento na mão do sonetista. Para os casos em que determinado animal
serve de centro das atenções, recomendo uma visita à página sobre O
SONETO ANIMAL; quando o sentimento em questão for o amor ou a saudade,
recomendo visitas às páginas O SONETO AMOROSO e O SONETO SAUDOSO,
respectivamente. [GM]
RIOS [Amadeu Amaral]
Almas contemplativas! Vão rolando
Por esta vida, como os rios quietos...
Rolam os rios, árvores e tetos,
Céus e terras, tranqüilos, espelhando;
Vão refletindo todos os aspectos,
Num serpentear indiferente e brando;
Espreguiçam-se, límpidos, cantando,
No remanso dos sítios prediletos;
Fecundam plantações, movem engenhos,
Dão de beber, sustentam pescadores,
Suportam barcos e carreiam lenhos...
Lá se vão, num rolar manso e tristonho,
Cumprindo o seu destino sem clamores
E sonhando consigo um grande sonho.
IDÍLIO [Amaral Ornelas]
Sentamo-nos os dois à beira-mar. As brumas
Pardacentos dragões que o sol vai devorando
Trepavam pelo céu; e o oceano, calmo e brando,
Calçava-nos os pés de alvíssimas espumas.
Várias conchas de cor ele arrastava, em bando,
Pela cauda de arminho e de nevadas plumas;
Muitas frações de aurora iam-se abrindo, e algumas,
Quais pedaços do céu, iam na areia entrando.
E enquanto ela, sorrindo, o olhar pousava em tudo,
Na alva cauda do mar, nas conchas, no veludo
Da arcada celestial cheia de negros véus,
Via-lhe o mar na veste, a espuma nos seus folhos,
E ficava admirando a concha dos seus olhos
Que vive a enclausurar dois pequeninos céus.
CREPÚSCULO [Ari Ramos Souto]
No berço de auri-flama o Astro-Rei se inclina
À hora vesperal que soa mansamente
E cerra, negligente, a ígnea cortina,
Franjando de ouro fulvo a porta do poente.
Da larga pincelada a mancha purpurina
Dilui-se em plúmbeo manto à luz esmaecente
E em pouco, sob o céu que o Sol inda ilumina,
A noite se espreguiça, e vagarosamente...
E nessa hora, então, de mística beleza
Em que se queda, muda, a própria Natureza
Ouvindo o soluçar da tarde em agonia,
Recortam o ar, em bando alacre, os passarinhos
E, em doce sinfonia ao cântico dos ninhos,
Murmura um sino, em prece, o som da Ave-Maria!...
CONTEMPLANDO O MAR [Artur Heráclio Gomes]
Longe dos meus, do lar querido ausente,
O passado feliz a recordar,
Estive à noite, o coração dolente,
Horas a fio, contemplando o mar.
Ele, com fúria, ameaçadoramente,
Vinha as ondas na praia arremessar,
E se estorcia em convulsões, fremente
Com um aspecto sinistro, singular.
E num contraste, cheias de doçura,
Cintilavam naquela noite escura
Tantas estrelas pelo céu sem fim...
Eu também sinto, inquieto, insatisfeito,
Um temporal que ruge no meu peito...
Mas brilha a luz de Deus dentro de mim!
SOBRE O AJOUJO DAS BALSAS [Artur Lobo]
Amplo, profundo, túrgido, sombrio
Ora estreitando, ora apartando mais
O leito desce o caudaloso rio...
Desce por entre trêmulos juncais.
No calmo espelho cristalino e frio,
Aberto ao sol e às pompas tropicais
De um verdejante e longo renque esguio
Miram-se as palmas dos buritisais.
Na praia abstrusa, modorrando à toa,
Indiferente e formidanda, a boa
Dorme do sol ao rútilo clarão;
E sobre a abrupta penedia bronca
Ronca a pantera, e a catadupa ronca
Abalando o vastíssimo sertão!
O RIBEIRÃO [Astério de Campos]
Rio entre arestas, e grotões, e matos,
Rio de minha terra, aos borborinhos
Das sonhadoras águas, dos grabatos
De seixos vi correr pelos caminhos!
Que belos dias, e que sonhos gratos
Passei, gozando múltiplos carinhos
No mago espelho de amorosos catos,
Ante os frouxéis das aves, e dos ninhos!
Vi-o, menino, e não tornei a vê-lo!
Formoso Ribeirão, que a sede acalma,
Jamais pude olvidá-lo, ou esquecê-lo!
Sei que envelheço, e perderei o tino...
Enquanto ficas, rio de minha alma,
Cada vez mais formoso, e mais menino!
O PÂNTANO [Augusto dos Anjos]
Podem vê-lo, sem dor, meus semelhantes!...
Mas, para mim que a Natureza escuto,
Este pântano é o túmulo absoluto,
De todas as grandezas começantes!
Larvas desconhecidas de gigantes
Sobre o seu leito de peçonha e luto
Dormem tranqüilamente o sono bruto
Dos superorganismos ainda infantes!
Em sua estagnação arde uma raça,
Tragicamente, à espera de quem passa
Para abrir-lhe, às escâncaras, a porta...
E eu sinto a angústia dessa raça ardente
Condenada a esperar perpetuamente
No universo esmagado da água morta!
MANHÃ NO CAMPO (a Maria Nunes) [Auta de Souza]
Estendo os olhos pelo prado afora:
Verdura e flores é o que a vista alcança...
Bendito oásis onde o olhar descansa
Quando saudades do Passado chora.
Escuto ao longe uma canção sonora.
Voz de mulher ou, antes, de criança
Entoa o hino branco da Esperança,
Hino das aves ao nascer da Aurora.
Por toda parte risos e fulgores
E a Natureza desbrochando em flores,
Iluminada pelo Sol risonho,
Recorda um'alma diluída em prece,
Um coração feliz que inda estremece
À luz sagrada do primeiro sonho!
CROMO [B. Lopes]
Pitangueiras, arreando, carregadas
Esmeralda e rubim que a luz feria
Cintilavam, em pleno meio-dia,
Na argêntea praia de um fulgor de espadas.
Sob o largo frondel eram risadas,
Toda uma festa, um chalro, a vozeria
De um rancho alegre e simples que colhia:
Moças frutas, e moços namoradas.
Em cima outra aluvião, por todo o mangue,
De sanhaços, saís e tiês-sangue,
Policromia musical da mata.
E através da folhagem miúda e cheia
Bordava o sol, ao pino, sobre a areia
Um crivo de oiro num sendal de prata!
PALMEIRA [Bastos Tigre]
Olho a nobre palmeira, em cujo cimo, a fronde
Se agita a farfalhar; e, ora canta e assobia,
Ora esbraveja, em fúria, ou solta, de onde em onde,
Gemidos de uma atroz, lancinante agonia...
Que alma contraditória em teu cerne se esconde
Que te faz rir, alegre, ou suspirar, sombria?
E a palmeira imperial, humilde, me responde:
Não sou eu! Quem me agita a fronde é a ventania!
Olho, agora, aos meus pés, uma couve tronchuda
As folhas oscilando em leve movimento,
Para cá, para lá, conforme o vento muda.
Esta, digo eu, não tem prazer nem sofrimento!
E ela, abrindo num riso a face repolhuda,
Impa de orgulho e diz: Sou eu quem faz o vento!
OLHANDO O RIO (a Alencar Duarte) [Belmiro Braga]
Nas noites claras de luar, costumo
Ir das águas ouvir o vão lamento;
E, após o ouvi-las, cauteloso e atento
Que o rio também sofre, eis que presumo.
Nesse que leva tortuoso rumo,
Que fado triste e por demais cruento:
Vai deslizando agora doce e lento
E agora desce encachoeirado e a prumo.
O dorso aqui lhe encrespa leve brisa,
Ali o deslizar calhau lhe veda;
Além, de novo, sem fragor, desliza...
És como o rio, coração tristonho:
Se ele vive a chorar de queda em queda,
Vives tu a gemer de sonho em sonho...
CARREIRO (a Oliveira e Silva) [Beni Carvalho]
Carreiro do Nordeste, a tua história
É toda a vida agreste do sertão;
E, de teu carro, a toada merencória
Lembra poemas de amor na solidão.
De labor e de heroísmo, a tua glória
Assenta na alpercata e no aguilhão,
Bandeirante esquecido, sem vitória,
Em que esmeraldas nunca brilharão!
Caminhas sob o sol e à luz que desce
Da lua cheia, ungindo o carnaubal,
Onde o vento se faz suspiro e prece...
Sonolentos, teus bois longe se vão...
E teu carro, a cantar, leva, afinal,
Em seu eixo, gemendo... um coração!
O FRADE E A FREIRA [Benjamin Silva]
Na atitude piedosa de quem reza
E como que num hábito embuçado,
Pôs naquele recanto a natureza
A figura de um frade recurvado.
E sob um negro manto de tristeza
Vê-se uma freira, tímida, a seu lado,
Que vive ali rezando, com certeza,
Uma oração de amor e de pecado...
Diz a lenda uma lenda que espalharam
Que aqui, dentre os antigos habitantes,
Houve um frade e uma freira que se amaram...
Mas Deus os perdoou lá do infinito,
E eternizou o amor dos dois amantes
Nessas duas montanhas de granito!
CÉU E MAR [Cassiano Ricardo]
Quando a vela, ao sabor dalgum sonho bendito,
Deixando o litoral do horizonte no fundo,
Baila e treme hesitando, ao longe, sem um grito,
Na emoção de fugir em busca doutro mundo,
É tão crebro o rumor do mar, tão crebro e aflito,
À saudade do poente ou do sol moribundo,
Que, se a vela se afunda, através do infinito,
Cuido que a alma deserta em lágrimas afundo...
Tudo porque nesta hora entre sirtes e fragas,
O gemido dos ventos e o noturno das vagas,
Trazem ao meu silêncio os augúrios que infundem.
E aos longes, no horizonte, à luz crepuscular,
O azul do céu e o azul do oceano se confundem
Como um naufrágio azul do céu dentro do mar.
ALTAS SERRAS [Cláudio Manuel da Costa]
Altas serras, que ao Céu estais servindo
De muralhas, que o tempo não profana,
Se Gigantes não sois, que a forma humana
Em duras penhas foram confundindo;
Já sobre o vosso cume se está rindo
O Monarca da luz, que esta alma engana;
Pois na face, que ostenta, soberana,
O rosto de meu bem me vai fingindo.
Que alegre, que mimoso, que brilhante
Ele se me afigura! Ah qual efeito
Em minha alma se sente neste instante!
Mas ai! a que delírios me sujeito!
Se quando no Sol vejo o seu semblante,
Em vós descubro ó penhas o seu peito?
COR CORDIUM [Cleómenes Campos]
Quando eu morrer, procura uma árvore florida,
E cava-lhe no tronco, amada, o meu caixão:
Quero que aí repouse o meu corpo sem vida,
Longe do humano olhar, dentro da solidão
Cante-me o "requiem" triste a voz da água perdida...
Reze por mim o vento a sua alta oração...
E seja-me o silêncio a lápide escolhida:
Que vale, neste mundo, a maior inscrição?
E, um dia, quando tu, minha doce Querida,
Fores ver-me (talvez o tronco esteja são),
Para que aches, sem custo, a árvore preferida,
Farei cair da altura um fruto em tua mão,
Fruto que, ao roçar a palma comovida,
Irá tomando a forma e a cor de um coração...
PLENILÚNIO [Cruz e Souza]
Vês este céu tão límpido e constelado
e este luar que em fúlgida cascata,
cai, rola, cai, nuns borbotões de prata...
Vês este céu de mármore azulado...
Vês este campo intérmino, encharcado
da luz que a lua aos páramos desata...
Vês este véu que branco se dilata
pelo verdor do campo iluminado...
Vês estes rios, tão fosforescentes,
cheios duns tons, duns prismas reluzentes,
vês estes rios cheios de ardentias...
Vês esta mole e transparente gaze...
pois é, como isso me parecem quase
iguais, assim, as nossas alegrias!
DE VOLTA [Edwiges de Sá Pereira]
Passei outrora aqui, nessas campinas:
Como as queimara o Sol, rude e bravio!
Boninas mortas, roseirais em ruínas,
E o rio inerte, além, sem murmurio...
Mas, eu trazendo na alma as cavatinas
De um sonho doce como o sol de estio
Nem tive dó, sequer, dessas boninas
Nem lamentei a sorte desse rio!
Hoje, de novo aqui passando, eu vejo
Aves, flores, verdura, e o rumorejo
Ouço da água, a rolar clara e sonora;
E tudo eu sinto olhar-me sem piedade
Como a indagar de ti, grande saudade,
O que é que fiz das ilusões de outrora...
GOTA D'ÁGUA [Emílio de Meneses]
Olha a paisagem que enlevado estudo!...
Olha este céu no centro! olha esta mata
E este horizonte ao lado! olha este rudo
Aspecto da montanha e da cascata!...
E o teu perfil aqui sereno e mudo!
Todo este quadro que a alma me arrebata,
Todo o infinito que nos cerca, tudo!
D'água esta gota ao mínimo retrata!...
Chega-te mais! Deixa lá fora o mundo!
Vê o firmamento sobre nós baixando;
Vê de que luz suavíssima me inundo!...
Vai teus braços, aos meus, entrelaçando,
Beija-me assim! vê deste azul no fundo,
Os nossos olhos mudos nos olhando!...
A FLOR DO CÁRCERE [Euclides da Cunha]
NASCERA ALI no limo viridente
Dos muros da prisão como uma esmola
Da natureza a um coração que estiola
Aquela flor imaculada e olente...
E ele que fôra um bruto, e vil descrente,
Quanta vez, numa prece, ungido, cola
O lábio seco, na úmida corola
Daquela flor alvíssima e silente!...
E ele que sofre e para a dor existe
Quantas vezes no peito o pranto estanca!..
Quantas vezes na veia a febre acalma,
Fitando aquela flor tão pura e triste!...
Aquela estrela perfumada e branca,
Que cintila na noite de sua alma...
NATUREZA [Francisca Júlia]
Um contínuo voejar de moscas e de abelhas
Agita os ares de um rumor de asas medrosas;
A Natureza ri pelas bocas vermelhas
Tanto das flores más como das boas rosas.
Por contraste, hás de ouvir em noites tenebrosas
O grito dos chacais e o pranto das ovelhas,
Brados de desespero e frases amorosas
Pronunciadas, a medo, à concha das orelhas...
Ó Natureza, ó Mãe pérfida! tu, que crias,
Na longa sucessão das noites e dos dias,
Tanto aborto, que se transforma e se renova,
Quando meu pobre corpo estiver sepultado,
Mãe! transforma-o também num chorão recurvado
Para dar sombra fresca à minha própria cova.
SONETO 256 ENGAIOLADO [Glauco Mattoso]
Os pássaros povoam a visão
idílica dos bardos inspirados:
pardais e sabiás ressabiados;
o melro, o rouxinol, canoro ou não.
Algumas outras aves também são
tetéias dos poetas nestes lados:
jandaias, assuns pretos, que, furados
seus olhos, mais bonito cantarão.
Arrulhos e trinados e gorjeios
povoam os ouvidos dos poetas...
Os não sentimentais estão é cheios!
A mim, são preferíveis as discretas:
coruja, por exemplo, ou uns mais feios:
o pato e o urubu: pé chato e infectas...
ÁGUAS [Gomes Leite]
Águas, turvas e claras há na terra,
Estagnadas, correntes, borbulhantes:
Águas de mar, que oscila; água da serra,
Que desce argêntea em córregos cantantes;
Água quieta dos lagos; água que erra
Sob o chão e que, apenas por instantes,
Uma cisterna a Altura lhe descerra;
Água altívola em "cumulus" distantes...
Ah! mas uma água existe dentre as águas,
Que, sendo a lava do vulcão profundo
Da alma candente de paixões insanas,
É o maior lenitivo para as mágoas:
Água do Céu, que surge neste mundo,
Gotejando das pálpebras humanas!
CHORO [Gregório de Matos]
Como exalas, penhasco, o licor puro,
Lacrimante a floresta lisonjeando?
Se choras por ser duro, isso é ser brando,
Se choras por ser brando, isso é ser duro.
Eu, que o rigor lisonjear procuro,
No mal me rio, dura penha, amando;
Tu, penha, sentimentos ostentando,
Que enterneces a selva, te asseguro.
Se a desmentir afetos me desvio,
Prantos, que o peito banham, corroboro,
De teu brotado humor, regato frio.
Chora festivo já, cristal sonoro;
Que quanto choras se converte em rio,
E quanto eu rio, se converte em choro.
RIO [Hermes Fontes]
Bojuda serpe, dócil crocodilo
coleia o rio... Atrás, uma montanha
figura um cavaleiro a persegui-lo
de longe... E, distanciando-se, o acompanha.
Adiante, o bosque todo se emaranha
para deter-lhe o curso e constringi-lo:
o rio, surdo e cego à ameaça estranha,
vai correndo, monótono e tranqüilo...
Abre-se o abismo ali para tragá-lo:
e o rio, dorso ondeante ao beijo eóleo,
salta, a crina a flutuar... régio cavalo!
E ancho, e triunfante, como um rei no sólio,
avança para o Mar, quer dominá-lo...
E o Mar, que o espera, num bocejo, engole-o...
AS DUAS PALMEIRAS [Jacinto de Campos]
Quando passo buscando a humana lida,
A alma tecida de ilusões tão várias,
Junto à velha choupana carcomida
Vejo duas palmeiras solitárias.
Uma já morta, outra reverdecida,
Num desmancho de palmas funerárias,
E ao som da harpa do vento a que tem vida,
Saudosa plange salmodias e árias.
Ó tu, que me olvidaste no caminho,
Meu coração deixando como um ninho,
Sozinho e triste, ao vento balouçando...
A saudade me diz, como em segredo:
Que és a palmeira que morreu bem cedo,
E eu sou aquela que ficou chorando.
A CHÁCARA [Jonas da Silva]
Qual um ninho de alegres beija-flores
Escondido na múrmura floresta,
Eis a vivenda, a chácara modesta
Dessa formosa imperatriz das flores.
Do sol nascente aos tímidos fulgores
Ela desce ao jardim cândida e lesta
E fremem folhas num rumor de festa,
Trinam nas frondes líricos cantores.
Muitas vezes, passando estrada em fora,
Ouço uma voz harmônica, sonora
E, para ouvi-la, estaco e me concentro.
E nessa voz a melodia é tanta
Que os passarinhos, quando a moça canta,
Voam cantando pela casa a dentro!
NATURA MATER [Jorge de Lima]
Clorofila e pletora enchem-lhe o seio farto
E trajam-lho de verde e cobrem-lho de ninhos!
E tão nova, parece, é o seu primeiro parto
Que fez o bosque, o rio, a flor e os passarinhos!
Num dia assim eu sei, oh! mãe fecunda, eu parto
Inânime, sem vida e sem ais, sem carinhos,
E o teu seio eu irei um dia fecundar-to
Na doçura talvez das flores dos caminhos!
Do meu sangue farás a cor das tuas flores,
Dos meus ossos os sais, dos músculos os troncos,
Na química vital do teu parto sem dores!
A Vida é um culto eterno ao forte, aos maus e aos broncos!
Mãe, isola-me dos bons e dos frouxéis do ninho
Quero ter a vitória em ser mau, sendo espinho!
O LAGO [Júlia Cortines]
Um pouco d'água só e, ao fundo, areia ou lama,
Um pouco d'água em que, no entanto, se retrata
O pássaro que o vôo aos ares arrebata,
E o rubro e infindo céu do crepúsculo em chama.
Água que se transmuda em reluzente prata
Quando do bosque em flor, que as brisas embalsama,
A lua, como uma áurea e finíssima trama,
Pelos ombros da noite a sua luz desata.
Poeta, como esse lago adormecido e mudo
Onde não há, sequer, um frêmito de vida,
Onde tudo é ilusório, e passageiro é tudo,
Existem, sobre um fundo, ou de lama ou de areia,
Almas em que tu vês, apenas, refletida
A tua alma, onde o sonho astros de ouro semeia!
ODALISCAS [Leôncio Correia]
O céu azul e transparente... um vago,
Suave olor de rescendentes rosas
Por tudo, em tudo um morno e doce afago:
Dos ninhos às campinas silenciosas.
O vento passa, de amoroso, gago
Por entre as ramarias sonorosas
Bailam os raios do luar no lago
Como trêmulas sombras vaporosas.
Soluça no luar um doidejante arpejo
Voluptuoso, febril, lascivo, ardente
Tal como o ruído de um primeiro beijo.
E as estrelas no céu cercam a lua:
Odaliscas guardando eternamente
Alva sultana eternamente nua.
ALVORECER [Lia Correia Dutra]
Era escura ainda há pouco a linha do horizonte
Que o primeiro clarão agora vem doirar
Alourando de luz a cabeça do monte
E tornando mais verde a água verde do mar.
Na esperança de ver o sol quando desponte
Demora a última estrela, ansiosa, a se apagar...
Há perfumes de flor, há frescuras de fonte
No grande espaço azul, espalhados pelo ar...
A pouco e pouco o sol pela amplidão se eleva
Derramando calor, no orgulho e na alegria
De vencer o silêncio, a noite, o frio e a treva.
Vibra em tudo, mais forte, a glória de viver
Quando irrompe a manhã, como uma sinfonia,
No prelúdio de luz e cor do alvorecer!
NUM CARRO DE BOIS [Luís Delfino]
Desde a infância, imortais, vós sonhadores sois!...
Vós, ó poetas, só vós, ouvis a sinfonia
Que espalhavam na estrada, ao declinar do dia,
Um velho, um carro tosco e dous morosos bois!...
Que véu d'opala e d'oiro em pó fino os cobria...
Como, a se entrerroçar; inclinavam-se os dois!...
Pelas cercas à flor a luz inda sorria,
Dulias de aroma à luz cantava a flor depois!...
Quando, a aguilhada ao ombro, o carreiro indolente,
Deixava-me ir na caixa, agarrada aos fueiros,
De lá eu via o sol descer pisando, ao poente,
Espáduas colossais de deuses prisioneiros;
Enquanto ouvia já passar furtivamente
As Dríades no vale, os Silfos nos outeiros...
A UMA PALMEIRA [Luís Franco]
Ó palmeira triunfal, que, aos rígidos combates
Do tufão rugidor, ergues teu vulto heril!
Sobre teu sólio augusto, onde nunca te abates,
Olhas o vale, a serra, o escalvado alcantil.
Ouves o vento vir, ora em rudes embates,
Ora leve, a passar rumoroso e sutil,
Surjam do oriente em fogo as nuvens escarlates,
Ou se estenda no espaço o amplo dossel de anil.
Nesses dias brumais de tédio e isolamento,
Em que a ausência de alguém se transfunde em pesar,
Vejo-te, erguida para o opaco firmamento;
E, olhando a oscilação das palmas verdes no ar,
Nesse eterno vaivém, quanta vez avivento
Mágoas que hão de fugir... sonhos que hão de voltar!...
O MAR (para o Barbosa Neto) [Manuel do Carmo]
Contempla o régio mar... Não vês como, arrogante
Busca ele estampar a luz do céu profundo,
E a noite, e o claro sol, e a lua palpitante
Na serena amplidão?... Contempla o mar fecundo...
Se rósea nuvem passa além, no céu distante,
De rosa toma os tons o pélago iracundo;
Se uma estrela apontou, do enorme espaço ao fundo
Em estos a reflete o indômito gigante...
Imita o régio mar: a túmida epopéia!...
Se a nuvem te surgir no estro, da poesia
Procura retratá-la ao centro do teu verso;
E qual se a estrela, paira em tua mente a idéia,
Reflete-a em rimas de ouro!... Atenta e parodia
O mar que o azul suntuoso estampa do Universo.
O MAR [Maranhão Sobrinho]
Ouve! O mar, escarpando as rochas, na agonia
Do sol, parece ter na voz o humano acento
De dor! Reza, talvez. Vai recolher-se. O dia
Se ajoelha e a tarde, em sonho, abraça o firmamento!
Como nós, pode ser que a tristeza e a alegria
O mar sinta também; precisa, em movimento,
Trazer um coração... Quem sabe o que irradia,
No seu íntimo, em doce e azul recolhimento!
Escuta! Uma onda vem beijar-te os pés. Não há de
Calma os seios rasgar sobre os basaltos. Quérulas
As ondas todas são. Ouve-lhe a voz. Piedade!
O mar leva-me a crer que tem paixões mortais
Em que rolam, brilhando, as lágrimas das pérolas
E palpita, fervendo, o sangue dos corais...
POMBA E CHACAL [Olavo Bilac]
Ó Natureza! ó mãe piedosa e pura!
Ó cruel, implacável assassina!
Mão, que o veneno e o bálsamo propina
E aos sorrisos as lágrimas mistura!
Pois o berço, onde a boca pequenina
Abre o infante a sorrir, é a miniatura
A vaga imagem de uma sepultura,
O gérmen vivo de uma atroz ruína?!
Sempre o contraste! Pássaros cantando
Sobre túmulos... flores sobre a face
De ascosas águas pútridas boiando...
Anda a tristeza ao lado da alegria...
E esse teu seio, de onde a noite nasce,
É o mesmo seio de onde nasce o dia...
NEVE [Oliveira e Silva]
Hei de sentir uma ternura grave,
Qualquer cousa de pausa na descida,
Quando te surpreender compondo, suave,
A bela cabeleira embranquecida.
Talvez o outono seja a grande chave
Perfeita e luminosa desta vida,
Em que, mãos postas, murmuramos Ave,
Ventura, colho-te amadurecida!
Há, no outono, um sabor de cachos de uvas
Que provamos, tranqüilos, só de vê-los
Rebrilhantes, lavados pelas chuvas.
Deve ser muito doce e manso, ainda,
Sorridente, ao tocar os teus cabelos,
Dizer-te: Como a neve te faz linda!
NO CAMPO [Oscar Lopes]
Cantam perto de mim sonoras fontes
E de aves mil ouço o diverso grito.
Longe, por sobre o rio, arcos de pontes
Fazem risonha a terra que ora habito.
Por largos e lavados horizontes
Passeio o olhar, sequioso de infinito,
Tenho diante de mim selvas e montes
E depois deles amplos céus eu fito.
À noite, quando o brilho é mais agudo
Nos astros e cá em baixo dorme tudo,
Eu, partindo cadeias insofríveis,
Remonto ao dilatado firmamento,
Sem poder resistir em pensamento
À atração das esferas invisíveis.
FORTALEZA [Paula Nei]
Ao longe, em brancas praias embalada
Pelas ondas azuis dos verdes mares,
A Fortaleza, a loura desposada
Do sol, dormita à sombra dos palmares.
Loura de sol e branca de luares,
Como uma hóstia de luz cristalizada,
Entre verbenas e jardins plantada,
Na brancura de místicos altares.
Lá, canta em cada ramo um passarinho
Há pipilos de amor em cada ninho
Na solidão dos vastos matagais.
É minha terra, a terra de Iracema,
O decantado, esplêndido poema
De alegria e beleza universais.
OLINDA [Paulino de Andrade]
No alto, a paisagem verde-escura e acidentada.
Em baixo, o ouro da praia e a saudade do mar...
Sugere lendas... reis magos... terra encantada...
Fidalgas castelãs... troveiros a cantar...
É bem de vê-la sob a tragédia sagrada
Do crepúsculo: é grande, heróica, singular!
Eu, quando a vejo assim, tenho a alma amplificada
E uma dilatação de beleza no olhar.
E se, pela alterosa e lendária Palmira
Longa e empolgada, a vista amplamente se estira,
Lembro o Nebo sob a ânsia imortal de Moisés!...
E um ninho azul coroa a epopéica Cidade...
Rumina o coqueiral uma velha saudade,
E a saudade do Mar rumoreja-lhe aos pés...
ESTIO [Paulo Brandão]
É chegada a sazão das louras searas,
Que ondeiam, longe, em flavas ondas de ouro,
A este retiro, em que se escuta em coro
Das aves, concertando, as vozes claras...
O sol no céu cintila, ardente e louro...
Já dentre as folhas, últimas e raras,
Se expande, à luz das árvores avaras
O sazonado e púrpuro tesouro...
Sob estas velhas árvores descanso
O corpo, ouvindo os pássaros e o manso
Mugir dos bois, enquanto morre o dia...
Enche-me a paz ignota que as domina,
E a luz contemplo e a esfera cristalina,
Que de altos frutos de ouro se atavia.
AÇUCENAS [Pedro Saturnino]
Minha Mamãe! tu foste mãe-menina,
Pois é filho das tuas mãos pequenas
Aquele pé viçoso de açucenas,
Que plantaste quando eras pequenina.
Carregado de flores (e de penas),
Lá no mesmo local ainda germina;
Do passado jardim resta ele apenas,
Tudo mais, ao redor, é mato ou ruína.
Eu, teu filho de amor que tanto estimas
E irmão dele nos dons, e até nos males,
Ao lembrar-me de ti, floresço em rimas.
Meu irmão com saudades e entre dores,
Entre espinhos cruéis levanta o cális
E lembra-se de ti chorando flores!
CAMPOS DO JORDÃO [Raif Kurban]
A serrana região a lua banha.
Brilham estrelas mil no firmamento.
Faz um pouco de frio. Entoa o vento
Monótona canção, tristonha, estranha.
Cavernoso tossir a noite lanha,
Um sombrio tossir, de triste acento.
E paira no ar um quê de desalento.
Os pinheiros se agitam na montanha.
Vai surgindo por fim a madrugada.
A noite se contorce, na alvorada,
Em convulsivas e medonhas crises.
A noite cospe sangue, o sangue cora
A nascente manhã, e a rubra aurora
É uma série terrível de hemoptises...
GOTA D'ÁGUA [Raul Bopp]
À luz rompente, matinal, cintila
A gota d'água que outra gota preme.
Célula-máter, pérola ou pupila,
Treme e cintila, ora cintila e treme.
Presa na ponta de um pecíolo, extreme,
De irradiação de uma ágata intranqüila.
Toda beijada pelo sol, vacila...
Delicadeza líquida que freme!
Pranto da terra e às vezes pranto humano!
Plasma fecundo e humilde que germina
Aquela eterna solidão do oceano.
Dorme no orvalho e brinca entre os abrolhos,
Sobe, rumo do céu, quando é neblina,
Desce, desfeita em lágrima, dos olhos.
VELHA NATUREZA [Raul de Leoni]
Tudo que a velha Natureza gera
Vai sempre rumo do melhor futuro;
Ela fecunda com o ânimo seguro
De quem muito medita e delibera...
O seu gênio de artista mais se esmera
Na teoria sutil do claro-escuro,
Com que exalta a verdade mais austera,
Frisando em tudo o símbolo mais puro...
Só faz o Mau e o Hediondo para efeito
De projetar mais longe e sem nuance
A alma cheia de luz do que é perfeito,
Como cavou o Abismo nas entranhas,
Para dar mais relevo e mais alcance
À soberba estatura das montanhas...
O SÍMBOLO DA TARDE [Ribeiro Couto]
No azul das tardes louras e serenas,
Cruzam-se os passarinhos, em revoada,
Espalhando, no rumo da morada,
Reticências de pios e de penas.
No azul, sobre a paróquia sossegada,
Os sinos despetalam cantilenas,
Chamando, para o enlevo das novenas,
As virgens, as avós e a meninada.
No azul, antes que a noite envolva a terra,
Ânsias de corações, expectativas
Parece errarem no perfume que erra.
No azul evocador das tardes calmas,
Passam nuvens longínquas, fugitivas,
Como a felicidade pelas almas.
RESSURREIÇÃO [Rodolfo Teófilo]
Não viste, poeta? O campo requeimado
Era como o animal, que hiberna ao frio,
E morto espera no calor do estio
Que volte a vida ao corpo inanimado.
Campos, florestas, tudo enfim tostado!...
Só esqueletos de um negror sombrio,
Hirtos, de pé, sofrendo o desvario
Do sol, que em pleno azul dardeja irado.
Nos áridos sertões, nos bebedouros,
Mortos de sede urravam magros touros,
E a terra gota d'água não vertia!...
Das ruínas desse incêndio que tu viste,
Desse solo combusto, negro e triste,
Surgiu a vida no correr de um dia.
ROCHA SERTANEJA [Sabino de Campos]
Negro perfil de rocha viva e bruta.
Bate-lhe em cheio o sol do alto sertão.
Sentinela imutável, absoluta,
De cem léguas, ou mais, de solidão.
Tem a fria aparência irresoluta
De quem é triste como as pedras são...
E não ter paliativo nem cicuta
Que lhe adoce ou lhe acabe a condição...
Para o poente, que o sol de ouro retinge
Em tarde sertaneja, estão voltados
Seus olhos amauróticos de esfinge...
E, enquanto o musgo nas escarpas medra,
Rolam dois fios de água, derramados
Daqueles olhos lúgubres de pedra...
RISONHAS FLORES [Silva Alvarenga]
Que saudoso lugar!... Em roda as flores
Nascem por entre a relva; estes pinheiros,
Parecem suspirar também de amores...
O zéfiro respira; o sol formoso
Vai dos troncos as sombras aportando,
Que já se inclina o carro luminoso...
O rouxinol te está desafiando;
Querem-te ouvir os verdes arvoredos
Que o vento faz mover de quando em quando,
E a musa que de amor sabe os segredos...
Risonhas flores, que um estreito laço
Formais de vossos ramos na floresta,
Sei que Glaura vos ama... pela sesta
Deixai-vos desfolhar no seu regaço.
REI DESTRONADO [Tasso da Silveira]
Houve um tempo em que o mar, grandioso e soberano,
Sobre o mundo imperou. Nem valado, nem serra,
Nem animal, nem flor; por toda parte o insano
E trágico fragor que o seu rugido encerra.
Mas a luta interior a incandescente guerra,
Convulsionando o globo insondável arcano!
Numa glória imortal fez ressurgir a terra,
Grandiosa, a dominar a vastidão do oceano...
Hoje procura o mar, bramindo ansioso e tredo,
Conquistá-la outra vez; contra a terra se lança,
Mas a terra lhe opõe o orgulho do rochedo,
E, em vagalhões, o oceano, agitado e profundo,
Ruge de ódio a lembrar, num clamor de vingança,
O áureo tempo em que foi dominador do mundo!...
SONETO DE FAZENDA [Vinicius de Moraes]
Nas tardes de fazenda há muito azul demais.
Eu saio às vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de há três anos atrás.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a água fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma amora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciúme
E quando por acaso uma mijada ferve
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nós todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
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