O SONETO PESSIMISTA
Se a filosofia tem mais perguntas que respostas e a religião mais
proibições que promessas, a poesia encontra sempre (dependendo do humor
do poeta) um meio (que nunca é o meio termo) de responder mais que a
filosofia e de prometer mais que a religião. Se o poeta for otimista, a
pior das hipóteses é a esperança e a melhor o paraíso; se for
pessimista, o inferno é aqui e agora, e sempre pode piorar antes que o
soneto acabe. Enquanto as opiniões do sonetista couberem numa
perspectiva pascaliana (ou seja: para quem crê, explicações não são
necessárias; para quem não crê, não são suficientes), a seleção mais
pertinente estaria na página O SONETO SAGRADO ou na página O SONETO
FILOSÓFICO. A partir do ponto em que o sonetista se predispõe a pintar
com tinta cor-de-rosa ou preta, seu caso se enquadra na página O SONETO
OTIMISTA ou nesta que apresento abaixo. [GM]
SOLITUDES [A. J. Pereira da Silva]
Senhor, meu Deus! não move a minha pena,
Vós o sabeis, o impulso da vaidade.
A glória deste mundo é bem pequena
E não nasci para a imortalidade.
Mas não sei por que nada me dissuade
E, antes, tudo em meu sangue me condena
A dar forma, expressão, plasticidade,
Estilo a tudo quanto é dor terrena.
É meu tormento. Chamam-lhe poesia,
Arte do verso. Chamo-lhe o madeiro,
A cruz da minha noite e do meu dia.
Cruz em que verto o sangue verdadeiro
E em que minha alma em transes agonia
E o coração se crucifica inteiro...
NATAL DE UM MENINO POBRE [Alcides Ferreira]
Fui menino e você, Papai Noel,
Não pôs presentes nos meus sapatinhos!...
No entanto, aos muitos outros garotinhos,
Você dava brinquedos a granel.
Muitos dezembros vi, bebendo o fel
De uma infância deserta de carinhos,
Enquanto os meus amigos e vizinhos
Das flores do Natal sorviam mel.
Você, que eu via em todos os recantos
Da cidade, tão meigo para tantos,
Não teve, para mim, um gesto nobre!
Porém, o seu desprezo eu justifico:
Você só gosta de menino rico...
Você não gosta de menino pobre!
DESTINO [Américo Palha]
Envolto no aranhol das minhas dores,
Abro, convulso, o livro dos meus dias:
Cada folha me traz fundos travores
E o veneno letal das nostalgias.
Algemado, suporto os estertores
De profundas e lentas agonias;
Soluços, funerais dos meus amores
E o féretro de glórias fugidias.
Se busco um lenitivo ao meu penar,
Ouço o eco de uma voz que grita: Não!
Viverás e sofrendo hás de chorar!
Minha alma, compungida, há de sentir
Pesadelos das horas que se vão,
Incertezas das horas que hão de vir...
IRONIA DIVINA [Artur de Sales]
Na silenciosa catedral vetusta
Penetrei; religioso e solitário,
Numa concentração de missionário
Sublimizado numa fé robusta.
De um Cristo macilento e funerário,
Braços abertos sobre a cruz adusta,
Vinha uma doce claridade augusta,
Que iluminava todo o santuário.
Aos pés da imagem do Crucificado
Chorei, por muito tempo, ajoelhado;
Mas, quando o olhar ergui, tremi de espanto:
Do altar, por entre as sombras, fugidias,
Oh! ironia atroz das ironias!
Aquele Cristo ria do meu pranto...
NUNCA! [Augusto de Lima]
"É cedo!" Ao homem uma voz responde,
Quando, recém-nascido, o olhar aberto
Pela primeira vez, levanta incerto,
Interrogando o fado que se esconde.
"É cedo ainda". Do zênite já perto
O espírito, por mais que inquira e sonde,
A mesma voz, que vem não sabe donde,
Repete o cruel dístico encoberto.
Fitando o ocaso, afaga uma esperança.
"Espera", diz-lhe a voz, e não se cansa
De esperar que do ocaso venha a aurora.
E a noite vem. No vítreo olhar silente,
Morto, ainda interroga avidamente...
Porém, responde a voz: "É tarde agora!"
PSICOLOGIA DE UM VENCIDO [Augusto dos Anjos]
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme este operário das ruínas
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!
TORTURA LENTA [Aureliano Lessa]
Há tormentos sem nome, há desenganos
Mais negros que o horror da sepultura;
Dores loucas, e cheias de amargura,
E momentos mais longos do que os anos.
Não são da vida os passageiros danos
Que dobram minha fronte; a desventura
Eu a desdenho... A minha sorte dura
Fadou-me dentro da alma outros tiranos.
As dores da alma, sim; ela somente,
Algoz de si, acha um prazer cruento
Em torturar-se ao fogo lentamente.
Oh! isto é que é sofrer! nenhum tormento
Vale um gemido só da alma tremente,
Nem séculos as dores de um momento!
FELICIDADE [Bastos Tigre]
Feliz do que foi sempre desgraçado,
E só viu, na existência, a desventura,
Pois, este, nem por sonhos, conjetura
No que consiste ser-se afortunado.
Se não teve prazeres no passado,
Reviver o passado não procura;
Que a vida é sempre má se lhe afigura.
E, sem consolo, vive consolado.
Triste é os tempos vividos, venturosos,
Comparar às agruras do presente;
Que mágoas só as tem quem teve gozos.
O mal é nada mais que o bem perdido;
Não dói tanto a desdita permanente
Como o não ser feliz, já o tendo sido.
GUERRA [Caio Maranhão]
O Gênio Humano tornou-se iracundo
E ruge e range a raiva atroz das hienas...
E a turba cai do báratro no fundo,
Nos vórtices de chama das geenas!
E, após a luta, o saque furibundo
Com todo o requintado horror das cenas...
Gargalha, Marte! Torna-te jocundo!
Já todo um povo geme as suas penas!
E assim como Atlas, num penar profundo
Oh! formidando assombro dos assombros!
Foi condenado a sustentar o mundo,
Essa gente, que surge dos escombros,
Vai palmilhando pelo campo imundo
Suportando a miséria sobre os ombros!...
PROCURA DA DESVENTURA [Cláudio Manuel da Costa]
Continuamente estou imaginando,
Se esta vida, que logro, tão pesada,
Há de ser sempre aflita, e magoada,
Se com o tempo enfim se há de ir mudando:
Em golfos de esperança flutuando
Mil vezes busco a praia desejada;
E a tormenta outra vez não esperada
Ao pélago infeliz me vai levando.
Tenho já o meu mal tão descoberto,
Que eu mesmo busco a minha desventura;
Pois não pode ser mais seu desconcerto.
Que me pode fazer a sorte dura,
Se para não sentir seu golpe incerto,
Tudo o que foi paixão, é já loucura!
ÚNICO REMÉDIO [Cruz e Souza]
Como a chama que sobe e que se apaga,
sobem as vidas a espiral do Inferno.
O desespero é como o fogo eterno
que o campo quieto em convulsões alaga...
Tudo é veneno, tudo cardo e praga!
E as almas que têm sede de falerno
bebem apenas o licor moderno
do tédio pessimista que as esmaga.
Mas a Caveira vem se aproximando,
vem exótica e nua, vem dançando,
no estrambotismo lúgubre vem vindo.
E tudo acaba então no horror insano
desespero do Inferno e tédio humano
quando, d'esguelha, a Morte surge rindo...
DELIRANDO... [Emiliana Delminda]
Musa, deixa-me só. O ambiente que respiro
A custo, eivado está de lúgubres sinais:
Sobre minha cabeça, ao jeito de um vampiro
Paira a sombra da morte. Adeus! Não voltes mais!
Não! perdoa-me. Vem, num último suspiro
Ouvir-me o cavo som de concentrados ais.
Eu sofro; a dor crucia e bem vês que deliro
Sonhando o rosicler de auroras celestiais!
No azul esplende o sol e eu tenho tanto frio!
Pulsa-me acelerado o coração doentio
E o tédio de viver a mente me entorpece...
O momento supremo aguardo ansiosamente,
Não me abandones, vem piedosa e complacente
Trazer-me a extrema-unção na esmola de uma prece!
A UM PESSIMISTA [Emílio de Meneses]
Olhas o céu e o céu, todo em atra gangrena,
Se te mostra corroendo as rútilas esferas.
Baixas à terra o olhar e a terra, em outras eras,
Plena de gozo e amor, ora é de horrores plena.
Sangra a etérea região, sangra a região terrena
E o horizonte, que as une, inda mais dilacera-as.
E as próprias linhas louco! em que a sânie verberas,
Podres vêm ao papel, podres brotam-te à pena.
Mas, se ao céu e se à terra, e se ao horizonte e ao verso,
Asco e náusea tressuando, a podridão atrelas
E nela vês tombar e fundir-se o universo,
Sobe do chão o olhar, baixa-o das nuvens belas
E volve-o dentro em ti, pois fora o tens imerso
Na própria irradiação das tuas próprias mazelas.
MELANCOLIA [Emílio Kemp]
Vão-se os dias passando e cada dia
Que chega, traz consigo as mesmas cores
Desta perene e atroz melancolia
Que me prende num círculo de horrores!
Se desta dor que tanto me crucia,
Busco esquecer-me, procurando amores,
Neles, somente, encontro que ironia!
Novos motivos para novas dores!...
E assim vivendo, eu vou como um precito
Que por estradas lúgubres caminha,
Rasgando os pés em pontas de granito.
Que importa a mim que a luz do sol se ria,
Se é tão profunda esta tristeza minha
Que eu já nem sei se fui alegre um dia!
MORRER... DORMIR... [Francisco Otaviano]
Morrer... dormir... não mais! Termina a vida
E com ela terminam nossas dores:
Um punhado de terra, algumas flores,
E, às vezes, uma lágrima fingida!
Sim! minha morte não será sentida;
Não deixo amigos, e nem tive amores,
Ou, se os tive, mostraram-se traidores,
Algozes vis de uma alma consumida.
Tudo é podre no mundo. Que me importa
Que ele amanhã se esb'roe e que desabe,
Se a natureza para mim é morta!
É tempo já que o meu exílio acabe...
Vem, pois, ó morte, ao nada me transporta!
Morrer... dormir... talvez sonhar... quem sabe?
MÃE [Gastão Macedo]
Naquele tempo, se um tormento vago
Empolgava minha alma de criança,
Vinhas, ó mãe, numa carícia mansa,
Os olhos me secar, com teu afago.
Mas tu partiste e, desde então, eu trago
Comigo o germe da desesperança.
O tédio me atormenta e não se cansa
De fazer-me da vida um sonho aziago.
Tento chorar mas só minha alma chora,
Porque, de minhas pálpebras, agora,
Não rola o pranto, amenizando abrolhos,
E sofro, mãe... A dor maior é aquela
Que, dentro d'alma, eternamente vela
Mas que não tomba em lágrimas dos olhos.
TRISTEZA [Gilka Machado]
O prazer nos embriaga, a dor nos alucina;
só tu és a verdade e és a razão, Tristeza!
flor emotiva, rosa esplêndida e ferina,
noute da alma, fulgindo, em astros mil acesa.
Não te amedronta o mal, o bem te não fascina,
és o riso truncado e a lágrima represa;
posta entre o gozo e a dor satânica e divina
moves eternamente um pêndulo a incerteza.
Etérea sedução das longas horas mortas,
horas de treva e luz; mistério do sol-posto;
mal que não sabes doer e bem que não confortas...
Trago dentro de mim, desde que me acompanhas,
um veneno de mel, um mortífero gosto,
um desgosto em que gosto alegrias estranhas.
SONETO 114 PESSIMISTA [Glauco Mattoso]
Já não se fazem craques como dantes.
Dinheiro a cada dia compra menos.
Há mortos, mas os danos são pequenos
depois das tempestades alarmantes.
Queimadas na Amazônia são gigantes.
Em Cuba adubam fumo com venenos.
A CIA negocia shows obscenos.
Genebra é a capital dos traficantes.
"Virão dias piores", diz o povo.
O próprio Nostradamus não previa
tão cedo esse admirável mundo novo.
E eu, cego, faço minha profecia:
Já sou imperador, e me comovo
por ser de surdos súditos o guia.
CARREGADO DE MIM [Gregório de Matos]
Carregado de mim ando no mundo,
E o grande peso embarga-me as passadas,
Que como ando por vias desusadas,
Faço o peso crescer, e vou-me ao fundo.
O remédio será seguir o imundo
Caminho, onde dos mais vejo as pisadas,
Que as bestas andam juntas mais ornadas,
Do que anda só o engenho mais profundo.
Não é fácil viver entre os insanos,
Erra, quem presumir, que sabe tudo,
Se o atalho não soube dos seus danos.
O prudente varão há de ser mudo,
Que é melhor neste mundo o mar de enganos
Ser louco cos demais, que ser sisudo.
SPLEEN [Guilherme de Almeida]
E a vida continua... E continua
o mesmo outono e o mesmo tédio... Os galhos
vão ficando tão nus, a alma tão nua,
e os meus cabelos pretos tão grisalhos!
Vem aí Dom Inverno... Vem com sua
neurastenia... Uns últimos retalhos
de folhas mortas passam pela rua:
e passa o bando dos meus sonhos falhos...
Triste inutilidade desta vida!
Uma árvore ainda espera, aborrecida,
uma impossível primavera... E ao ver
sua silhueta rendilhando o poente,
penso em alguém que espero inutilmente,
numa inútil vontade de viver!
RENÚNCIA [Heitor Lima]
Fugir, deixando um bem que o braço já tocava
Pela incerteza atroz de uma fé que redime...
Fugir para ser livre, e sentir, na alma escrava,
A sujeição fatal de uma paixão sublime.
Fugir, e, surdo à voz da consciência, que oprime,
Opor diques de gelo a torrentes de lava,
Sentindo, na renúncia, o alvoroço de um crime
Que a ingratidão aumenta e a covardia agrava.
Fugir, tão perto já da enseada, vendo, ao fundo,
Gaivotas esvoaçando entre velas e mastros,
Na glorificação triunfal do sol fecundo.
Fugir do amor fugir do céu, fugir de rastros,
Sufocando um clamor que abalaria o mundo
E abafando um clarão que incendiaria os astros.
OLHOS TRISTES [Henriqueta Lisboa]
Olhos mais tristes ainda do que os meus
São esses olhos com que o olhar me fitas.
Tenho a impressão que vai dizer adeus
Este olhar de renúncias infinitas.
Todos os sonhos, que se fazem seus,
Tomam logo a expressão de almas aflitas.
E até que, um dia, cegue à mão de Deus,
Será o olhar de todas as desditas.
Assim parado a olhar-me, quase extinto,
Este olhar que, de noite, é como o luar,
Vem da distância, bêbedo de absinto...
Este olhar, que me enleva e que me assombra,
Vive curvado sobre o meu olhar
Como um cipreste sobre a própria sombra.
BUENA-DICHA [Hermes Fontes]
Olhou-me a buena-dicha; olhou-me e disse:
Amarás. Brilharás e sofrerás.
Eu ia, então, na minha meninice
Inquieta, a cerca de vintênio atrás.
E, se tal por sabê-lo, eu antevisse
O predestino esplêndido e mendaz,
Quis amar, quis brilhar, quis que a velhice
Não me recriminasse de ações más.
Para brilhar, busquei a glória na arte.
Para amar, procurei o bem no afeto.
Para sofrer, levei a cruz e o andor.
Mas, a glória mentiu. Por sua parte,
Mentiu-me o amor, tudo mentiu, exceto
A doce mãe dos imortais a dor!
A VIDA (II) [J. G. de Araújo Jorge]
..Tem sido assim e assim será... Mais tarde
o que hoje pensas chamarás: quimera!
E esse esplendor que nos teus olhos arde,
será a visão de extinta primavera...
Escondido à traição, como uma fera,
bem em silêncio, e sem fazer alarde,
o Destino que é mau e que é covarde,
naquela sombra adiante já te espera!
E num requinte de perversidade
faz de cada ilusão, de cada sonho,
a ruína de uma dor... e uma saudade...
E se voltares, notarás então
desesperado, ao teu olhar tristonho
que em vão sonhaste... e que viveste em vão!...
SONETO PESSIMISTA [José Albano]
Poeta fui e do áspero destino
Senti bem cedo a mão pesada e dura.
Conheci mais tristeza que ventura
E sempre andei errante e peregrino.
Vivi sujeito ao doce desatino
Que tanto engana, mas tão pouco dura;
E inda choro o rigor da sorte escura,
Se nas dores passadas imagino.
Porém, como me agora vejo isento
Dos sonhos que sonhava noite e dia,
E só com as saudades me atormento;
Entendo que não tive outra alegria
Nem nunca outro qualquer contentamento
Senão de ter cantado o que sofria.
DESENGANO [José Maria do Amaral]
Uma por uma, da existência as flores,
Se a existência que temos é florida,
Uma por uma, no correr da vida,
Fanadas vi sem viço e vi sem cores.
Sonhos mundanos, sois enganadores
Alma que vos sonhou, geme iludida;
Existência, de flores tão despida,
Que te fica senão tristeza e dores?
Do mundo as ilusões perdi funestas,
Ao noitejar da idade, em amargura,
Esperança cristã, só tu me restas!
Fujo contigo desta ida impura,
Nas crenças que tão mística me emprestas,
Transponho antes da morte a sepultura.
DIVINA MENTIRA (a Rodrigues de Abreu) [Judas Isgorogota]
Pobrezinha da mãe que teve um filho poeta
E o viu cedo partir para as bandas do mar...
Nunca mais que ele volte à mansão predileta,
Nunca mais que ela deixe, um dia, de chorar...
É como a água de um lago, inteiramente quieta,
A alma de toda mãe que vive a meditar:
O mais leve sussurro é-lhe um toque de seta,
A mais leve impressão basta para a assustar...
Eu, por sabê-la assim, quando lhe escrevo, digo:
" Minha querida mãe, não se aflija comigo.
E eu vou passando bem... Jesus vela por mim..."
É que assim, ela a humana expressão da bondade
Contente por saber que vou sem novidade,
Jamais há de pensar que eu vá mentir-lhe assim...
ECCE HOMO [Leopoldo Braga]
Saberei perdoar! Sangra-me a chaga,
Mas não condenarei quem veio abri-la.
Nivelo o Mal e o Bem. Da mesma argila
É a mão que dilacera e é a mão que afaga.
Saberei esquecer, de alma tranqüila.
O turbilhão do Tempo é imensa vaga
Que as tristezas recônditas apaga,
À proporção que os sonhos aniquila!
Sempre o perdão e o esquecimento! Eis todo
O ardente sacrifício do meu culto
E a suprema razão deste denodo
Com que as paixões e as lágrimas oculto
E recebo, cantando, o aplauso e o apodo,
A esmola e o beijo, a gargalhada e o insulto!
O DESTINO [Luís Delfino]
O rio vem do mar, para o mar corre:
Quem sabe por que nasce e por que morre?
Sabe o sol que ele faz a madrugada?
Quem fez de um grão de areia este universo?
Não podia fazê-lo outro e diverso?
Pode cousa qualquer sair do nada?
Por que nos fez assim com fome e sede,
Selvagem, como a fera da floresta,
E não pôs tudo numa eterna festa?
Quem deu a vida, não daria a rede
Em que se embala o Índio do arvoredo,
Mas que ele arranca ao tronco com trabalho?
Ruge em torno de nós a dor e o medo.
Nada vales, Helena, e eu nada valho?!...
TRAVESSIA DAS LÁGRIMAS [Luís Murat]
Tudo tentei! Mas tudo inutilmente!
O fogo continuou a devorar!
É que nas cinzas frias do presente,
Havia muito ainda que queimar!
Lá vai a folha a revoltões na enchente...
Onde irá ter? Que irá por fim achar
Entre as urzes de um solo indiferente,
Ou nos recifes úmidos do mar?
Coração pobre folha! a travessia
Das lágrimas de estranhos tons matizas,
Com outras dores e outro pranto regas!
Segue viajor! Hás de chegar um dia...
Oh! como dilacera o chão que pisas,
Como é pesado o lenho que carregas!
O FAROL [Magalhães de Azeredo]
Fulge branco o farol no negro oceano,
E é como olhar fraterno, é como um grito
De luz, conforto humano e sobre-humano
Ao coração do nauta errante e aflito.
Mas este, apenas fogem medo e dano,
Nem cuida já do seu clarão bendito,
É a sorte do farol, ano após ano,
Sentinela da noite e do Infinito.
Assim tu, alma solitária e augusta,
Foco de luz, poesia e pensamento,
Farol solar na muda treva onusta,
Não esperes do vulgo desatento,
Nem grato afeto, nem palavra justa;
Mas o frio abandono, o esquecimento.
RENÚNCIA [Manuel Bandeira]
Chora de manso e no íntimo... Procura
Curtir sem queixa o mal que te crucia:
O mundo é sem piedade e até riria
Da tua inconsolável amargura.
Só a dor enobrece e é grande e é pura.
Aprende a amá-la que a amarás um dia.
Então ela será tua alegria,
E será, ela só, tua ventura...
A vida é vã como a sombra que passa...
Sofre sereno e dalma sobranceira,
Sem um grito sequer, tua desgraça.
Encerra em ti tua tristeza inteira.
E pede humildemente a Deus que a faça
Tua doce e constante companheira...
O REMORSO [Medeiros e Albuquerque]
O Deus que num momento de loucura
Criou a Terra e fez nascer a Vida,
Ao ver a obra de suas mãos saída,
Tão má, tão imperfeita, tão impura;
Ao sentir como em cada criatura
Existe sempre a queixa dolorida
De um sofrer, uma angústia, uma ferida,
Que a punge, que a magoa ou que a tortura,
E ao ouvir como a dor de cada peito
Soluçava no ar tristonho e baço,
Viu que o que tinha feito era mal feito...
E com remorso, como um criminoso,
Teve medo de um céu tão tenebroso,
E acendeu as estrelas pelo espaço.
NOTURNO [Medeiros Lima]
Noite amiga, sonâmbula, silente,
Muito te quero, muito te desejo,
Quando à hora do "Angelus" te vejo
Baixando à terra vagarosamente.
E se mais negra vens e tão somente,
Se não trazes dos astros o cortejo,
Deusa das trevas, mais e mais almejo
Fazer-te minha eterna confidente.
Ao falar-te da dor que me repisa,
Do desespero que me tantaliza
E gera o pasmo que me petrifica,
Negra te quero como o meu desgosto,
Para que o mundo me não veja o rosto
Se nele a mágoa revelada fica.
RESPOSTAS NA SOMBRA [Olavo Bilac]
"Sofro... Vejo envasado em desespero e lama
Todo o antigo fulgor, que tive na alma boa;
Abandona-me a glória; a ambição me atraiçoa;
Que fazer, para ser como os felizes?" Ama!
"Amei... Mas tive a cruz, os cravos, a coroa
De espinhos, e o desdém que humilha, e o dó que infama;
Calcinou-me a irrisão na destruidora chama;
Padeço! Que fazer, para ser bom?" Perdoa!
"Perdoei... Mas outra vez, sobre o perdão e a prece,
Tive o opróbrio; e outra vez, sobre a piedade, a injúria;
Desvairo! Que fazer, para o consolo?" Esquece!
"Mas lembro... Em sangue e fel, o coração me escorre;
Ranjo os dentes, remordo os punhos, rujo em fúria...
Odeio! Que fazer, para a vingança?" Morre!
HORA DE TÉDIO [Oscar D'Alva]
Quando a sós na existência meditando
Triste, revivo malogrados dias,
Ao recordar mais dores que alegrias,
O coração se sente miserando.
Punge-me n'alma fundas agonias
De uma vida passada o bem pregando
Em toda a parte, e apenas encontrando
Insolências, insultos, ironias...
Os gozos são efêmeros fulgores
Que minha alma lembrando hoje revive;
O mais são mágoas, lutos, dissabores...
Então sinto ao pensar que não gozei
Saudade de prazeres que não tive,
Esperança de bens que não terei!
CONTRASTE [Padre Antônio Tomás]
Quando partimos no vigor dos anos,
Da vida pela estrada florescente,
As esperanças vão conosco à frente
E vão ficando atrás os desenganos.
Rindo e cantando, céleres e ufanos,
Vamos marchando descuidosamente...
Eis que chega a velhice de repente,
Desfazendo ilusões, matando enganos!
E é só então que vemos claramente
Quanto a existência é rápida e fugaz!
E vemos que sucede exatamente
O contrário dos tempos de rapaz:
Os desenganos vão conosco à frente
E as esperanças vão ficando atrás!
VOX IN EXCELSO [Paulo Eiró]
Nestas noites de outono, quando, intensa,
A luz dos astros brilha em céu profundo,
E, como um resfolgar de moribundo,
Forceja o vento na folhagem densa;
Ouço, Fábio, uma voz que dessa imensa
Abóbada mal chega aqui no mundo,
Qual um suspiro de anjo pudibundo
Nos êxtases da eterna recompensa.
Ela diz-me: "Insensato peregrino!
Não herdaste a humanal felicidade,
E o seio furtas a um amor divino".
Voz de estrelado céu, falas verdade!
Oh que negro e medonho é o meu destino!
Oh que velhice é a minha mocidade!
CETICISMO [Paulo Maranhão]
Viver é andar pela existência afora,
Numa continuidade de fracassos,
Sentindo e pressentindo, ontem e agora,
Todas as esperanças em pedaços.
Mas, quanta vez, o coração se enflora
De novos sonhos; e os desejos lassos,
Refervem, febricitam, na pletora
E no arrebatamento dos abraços;
Só no êxtase velado da ternura,
Viver a vida primitiva e pura
Na modéstia feliz do nosso amor!
Assim, medita o poeta. E, enquanto pensa,
Sente a desolação para a descrença
Nesse desequilíbrio para a dor!
DESGOSTO [Santa Rita Bastos]
Se um tal homem houver, homem tão forte,
Que possa ver, em sua casa entrando,
Malfeitores cruéis, assassinando
A cara filha, a cândida consorte;
Se um tal homem houver, que sem transporte
Veja o céu rubros raios vomitando,
O mar pelos rochedos atrepando,
A terra inteira a bracejar com a morte:
Apareça esse herói, assim disposto,
Que lhe quero mostrar por dentro o peito,
E quero lhe não mude a cor do rosto!
Há de cair em lágrimas desfeito,
Vendo o meu coração pelo desgosto
Em mil roturas e pedaços feito...
AMARGURA [Stella Leonardos]
Por teres sido um dia o meu maior amigo,
Um dia me julgaste a tua amiga, apenas...
Não sabias então do sentimento antigo
Que eu, altiva, ocultava, e contaste-me as penas...
Como foi que te ouvi com feições tão serenas?!...
É coisa que até hoje entender não consigo:
Tu que falavas mal dessas fingidas cenas
A que o Destino obriga, e eu que fingi contigo!
Se imaginas, porém, que fiquei compungida
Quando te vi descrente, amaldiçoando a Vida,
Tendo eu tantas razões de me queixar do fel...
Jamais meu coração soube guardar rancores:
Se a Vida é uma comédia e é certo haver atores,
Não na posso culpar por meu triste papel!...
NO CAMINHO DA VIDA (à minha mãe) [Tancredo Morais]
Coitado de quem vai triste e sozinho,
Peregrino, da vida pela estrada,
A alma, aos poucos, deixando esfarrapada
Nas agudas arestas do Caminho.
Já da Esperança a lâmpada apagada,
E, às vezes, da Ventura tão vizinho,
Mas, sem provar seu capitoso vinho...
Como é triste, meu Deus, esta jornada!
Mãe que não chegue nunca aos teus ouvidos,
Que nos meus olhos trago amargo pranto,
E no peito um concerto de gemidos!
Ah, minha luz! meu carinhoso abrigo,
Este teu filho por quem rezas tanto
Só foi feliz quando viveu contigo.
TÉDIO [Tarsila Amaral]
Linha reta, infinita, onde a vista erradia
Em vão busca tatear um relêvo que agrade,
Vago traço de união entre o êrro e a verdade,
Entre a dôr que compunge e o prazer que inebria...
Intérmino bocejo a enodoar a estesia
Dos sentidos do Artista... Ao teu contato há de,
Certo, quebrar-se a Lyra em queixas de saudade
E a alma, tonta, mergulha em funda letargia...
Ao teu bafejo hostil uma névoa se adensa,
Que amortece, impiedosa, a luz da minha Crença
E a faz tombar em cinza, ao léu, de quando em quando...
Sinto o horror de sofrer por não poder sofrer...
E, cônscia, observo a morte e o lento apodrecer
Dos meus sonhos que vão para o Nada rolando...
FLORAÇÕES RUBRAS [Ulisses Diniz]
Tenho vibrando em mim a ardência das areias,
As volúpias pagãs de nômades sedentos.
As ondas lacrimais (e eu tenho as vistas cheias!)
São lavas de vulcões uivantes e violentos!
Sou árabe, talvez. Trago, estuando, nas veias
O sangue de ancestrais beduínos maus e cruentos.
Eu sigo, triste e só, em terras sempre alheias,
Carpindo ao léu da sorte, ao sol e aos quatro ventos.
Trago sangrando os pés nas urzes dos caminhos,
Onde vejo fulgir as gotas do meu sangue,
Maldita floração de abrolhos e de espinhos...
Pesa-me sobre a fronte o universo precito:
Vendo a lua sorrir na podridão do mangue
E o sapo a se mirar no espelho do infinito!...
ESPERANÇA [Vicente de Carvalho]
Só a leve esperança, em toda a vida,
Disfarça a pena de viver, mais nada;
Nem é mais a existência, resumida,
Que uma grande esperança malograda.
O eterno sonho da alma desterrada,
Sonho que a traz ansiosa e embevecida,
É uma hora feliz, sempre adiada
E que não chega nunca em toda a vida.
Essa felicidade que supomos,
Árvore milagrosa que sonhamos
Toda arreada de dourados pomos,
Existe, sim: mas nós não a alcançamos
Porque está sempre apenas onde a pomos
E nunca a pomos onde nós estamos.
ASPIRAÇÃO [Zeferino Brasil]
Ser pedra! não sofrer nem amar, ó que ventura!
Excelsa aspiração que merece um poema!
Ser pedra e ter da pedra a consistência dura
Que resiste do tempo à corrupção extrema.
Alma! sopro de luz que me anima e depura,
Antes tu fosses pedra: um diamante, uma gema
Não te seria a vida esta insana loucura
Do eterno aspirar à perfeição suprema!
Homem, não mudarás! És homem, serás homem;
Lama vil animada, onde vive e onde medra
A venenosa flor das mágoas que consomem.
Homem sempre serás, imperfeito e corruto...
E melhor é ser pedra e viver como pedra
Que ser homem assim e viver como um bruto!...
CARNAVAL [Zito Batista]
Põe a máscara e vai para a folia,
Na afetação de uns gestos singulares,
Esquecido dos últimos pesares
Que te atormentam todo o santo dia...
Homem doente, perdido nesses mares
Tenebrosos, da dúvida sombria,
Vê que há lá fora um frêmito de orgia,
Mesmo através das cousas mais vulgares!
Põe-te a cantar, desabaladamente!
Vai para a rua aos trambolhões, às tontas,
Como se enlouquecesses de repente...
Agarra-te à alegria passageira:
Olha que o que te espera ao fim de contas,
É o triste carnaval da vida inteira...
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