[3] O SONETO NO BRASIL
Nosso barroco, tipificado por Gregório de Matos, introduz fielmente o
modelo camoniano, que perdura através do arcadismo até o romantismo. O
soneto gregoriano segue freqüentemente o primeiro paradigma de Camões
(soneto 19 acima), mas, quando parodia o segundo paradigma (soneto 29),
Gregório mantém até o esquema rimático (CDE/CDE) dos tercetos:
SETE ANOS [Gregório de Matos]
Sete anos a nobreza da Bahia
Servia a uma pastora Indiana bela,
Porém servia a Índia e não a ela,
Que à Índia só por prêmio pretendia.
Mil dias na esperança de um só dia
Passava, contentando-se com vê-la,
Mas frei Tomás usando de cautela,
Deu-lhe o vilão, quitou-lhe a fidalguia.
Vendo o Brasil, que por tão sujos modos
Se lhe usurpara a sua Dona Elvira,
Quase a golpes de um maço e de uma goiva:
Logo se arrependeram de amar todos,
E qualquer mais amara, se não vira
Para tão limpo amor tão suja noiva.
Outros esquemas de tercetos figuram, com menor freqüência, na fase que
vai do barroco ao romantismo, como CDE/DCE (na obra do próprio Gregório)
ou CDC/EDE (em Gonçalves Dias, por exemplo) ou CDD/CEE (em Álvares de
Azevedo, por exemplo). Com o parnasianismo o modelo camoniano ganha
mobilidade, possibilitando rimas cruzadas (em duas ou quatro ordens) nos
quartetos (ABAB/BABA ou ABAB/CDCD) e três ordens de rimas, em todas as
posições possíveis, nos tercetos: CDC/EDE, CCD/EED, CDC/DEE, CDD/CEE,
etc. Além da flexibilização do molde, os parnasianos experimentaram
rupturas canônicas, influenciados por Baudelaire: tercetos antepondo-se
ou intercalando-se aos quartetos, metrificação irregular, desordenação
ou reordenação de rimas, a exemplo de Raimundo Correia ou Machado de
Assis.
Abundante no barroco e no arcadismo, escasso no romantismo, o soneto
atinge a saturação no parnasianismo e se mantém cultivado no simbolismo.
Com o modernismo seu uso parece a princípio abolido, mas, se rareia em
Mário, ressurge em Bandeira e Drummond, voltando a florescer (ou tendo
florescido, cedo ou tarde) com Jorge de Lima, Murilo Mendes, Guilherme
de Almeida, Ronald de Carvalho, Cecília Meireles, Henriqueta Lisboa,
Mário Quintana, Mário Faustino, Dante Milano, Abgar Renault, Augusto
Meyer... além, é claro, do sempre lembrado Vinícius; sem falar na
Geração de 45 (Afonso Félix de Souza, Alphonsus de Guimaraens Filho,
Domingos Carvalho da Silva, Geir Campos, Ledo Ivo, Paulo Bomfim, Paulo
Mendes Campos, Péricles Eugênio da Silva Ramos, entre outros), sob cuja
coletiva influência muitos modernistas revisitam o molde mais canônico.
Bandeira chega até a praticar o modelo inglês. Péricles Eugênio da Silva
Ramos até traduz Shakespeare. Geir Campos chega ao requinte de compor
uma coroa de sonetos. Paralelamente, processos pouco convencionais como
o verso livre ou o decassílabo branco passam a ter emprego
indiscriminado, dando a impressão de que bastaria um agrupamento de
catorze linhas em duas estrofes de quatro e duas de três versos para se
caracterizar um soneto. Poucos praticam tais licenças sem perder de
vista a integridade do gênero, como o próprio Drummond, Augusto
Frederico Schmidt ou, presentemente, Cajazeira Ramos.
Mesmo branco, sem acento heróico ou sáfico, o decassílabo tem
predominado entre os sonetistas brasileiros, exceto durante o
parnasianismo (quando o alexandrino teve seu apogeu) e no
pós-concretismo (quando proliferam experiências métricas em torno do
sonetilho e do monossílabo), mas em todas as correntes e períodos
pontificam exímios praticantes: no barroco, Gregório e Manuel Botelho de
Oliveira; no arcadismo, Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga;
no romantismo, Gonçalves Dias e Castro Alves; no parnasianismo, Bilac,
Correia, Alberto de Oliveira, Vicente de Carvalho, Emílio de Menezes e
Luís Delfino, além de todo o elenco da evolução da escola, que vai de
Guimarães Júnior a Francisca Júlia; no simbolismo, Cruz e Souza,
Alphonsus de Guimaraens, Da Costa e Silva, B. Lopes, Emiliano Perneta,
Alceu Wamosy e outros; num pré-modernismo (entre paraparnasianos e
transimbolistas), Raul de Leoni, Hermes Fontes, Martins Fontes, Augusto
dos Anjos, Gilka Machado, Auta de Souza, José Albano e Pedro Kilkerry;
num pós-modernismo, representantes de diversas tendências (mais, ou
menos ortodoxas) como Carlos Pena Filho, Ruy Espinheira Filho, Carlos
Nejar, Renata Pallottini, Gastão de Holanda, Gilberto Mendonça Teles,
Marcus Accioly, Walmir Ayala, Ivan Junqueira, Eno Teodoro Wanke, Paulo
Henriques Britto, Antônio Cícero, Adriano Espínola, Bruno Tolentino,
Alexei Bueno ou, para reciclar o barroco na contracultura, eu mesmo,
reencarnando Gregório em meu "barrockismo".
GLAUCO MATTOSO, julho/2002
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