laurindo rabello
brasil, 1826-1864

 

rabello, o cabelludo;
rebello, o rebellado

[transcripção e notas de glauco mattoso]

Muitos conhecem Bocage, mais por causa da parte pornographica de sua obra poetica. Poucos, porem, conhecem o Bocage brasileiro, um creoulo chamado Laurindo Rabello (ou Rebello), e desses poucos a maioria o conhece como poeta da segunda geração romantica, e não como herdeiro da faceta pornographica de Bocage. Na verdade, o precursor dessa linhagem fescennina e satirica na poesia lusophona foi o Bocca do Inferno, Gregorio de Mattos, no seculo XVII, ainda no periodo barroco. Bocage grangeou a mesma fama "maldicta" no seculo seguinte, e Rabello recambiou a fama para o Brasil no seculo XIX, accrescentando à pecha de maldicto a figura do neguinho pobre, victima do preconceito e dos azares da vida. Por seu porte magrelo e desengonçado, Rabello era conhecido como Poeta Lagartixa. Seu nome completo era Laurindo José da Silva Rabello. Nascido no Rio em 1826 e fallecido em 1864, tentou estudar medicina, mas, por falta de grana, foi recomeçar a vida na Bahia, onde se formou. La conheceu o repentista Moniz Barreto (1804-1868), com quem travou duellos e apprendeu a versejar à moda dos cantadores. Graças a esse convivio, practicou a glosa em forma de decimas heptasyllabas, transferindo o genero iberico dos moldes bocageanos para um ambiente typicamente brasileiro, ou antes, nordestino, aproveitando mottes locaes e influenciando outros glosadores, como os discipulos do potiguar Moysés Sesyom (1883-1932). Occorre que a thematica mais popular, nos mottes e glosas, é justamente a que envolve sacanagem, razão pela qual toda aquella producção de Rabello ficou de fora das OBRAS COMPLETAS que Osvaldo Mello Braga reuniu em livro em 1946: "Obviamente, não pudemos accrescer as poesias das OBRAS LIVRES... pornographicas, obscenas.", desculpava-se o organizador, na introducção ao volume. O titulo a que Braga se refere era uma edição posthuma e rara, publicada no Rio em 1882. Quem teve accesso a essa reliquia foi José Paulo Paes, que a facsimilou em 1981, presenteando-me com um exemplar. Estimulado pelo precioso material revelado, propuz à Brasiliense uma biographia do Poeta Lagartixa, que não chegou a sahir pela collecção de bolso onde estava programmada. Surge agora a opportunidade de divulgar na rede virtual o conteudo integral das LIVRES, cuja orthographia mantive e revisei com rigor etymologico para maior fidelidade ao original. A vida indisciplinada e injustiçada do poeta (que abandonara as carreiras ecclesiastica e militar por insubordinação e fora perseguido por desgraças de todo typo, errando pelo paiz até voltar ao Rio, onde morreu quando tentava restabelecer-se como professor) captivou minha sympathia por seu espirito mordaz e revoltado, instigando-me a versejar no estylo dos glosadores. A principio, esporadicamente, na epocha em que editei o JORNAL DOBRABIL; agora, mais systematicamente, quando retomo o genero em 2001, no livro GLAUCO MATTOSO, O GLOSADOR MOTTEJOSO, bem como na versão ampliada dos LIMEIRIQUES (adaptação do limerick à redondilha de cunho fescennino, com aquelle tempero anthropophagicamente brasileiro que Laurindo mulatamente inaugurou). Segue, portanto, a matriz dessa rebeldia sacana. Saboreiem!




ao leitor curioso

[prefacio da edição de 1882]

Depois de laboriosas pesquisas e de improbo trabalho, saem hoje colleccionadas em volume as poesias do Dr. Laurindo José da Silva Rebello, que não podem, PROH PUDOR! fazer parte das que o commum dos leitores encontrará em todas as livrarias.

Si não fosse o receio da redundancia de titulo, denominal-a-iamos — POESIAS EROTICAS, BURLESCAS E SATIRICAS — como o fez Innocencio da Silva para com as de Bocage, inspiradas pela mesma musa livre, galhofeira e desboccada.

Damol-as como a tradição oral nol-as conservou, por certo alteradas em mais de um poncto e modificadas, segundo a comprehensão poetica de cada um dos agentes da tradição as transmittiu ao editor.

O poeta, prodigo que era, como Bocage, do seu talento, nunca se deu ao trabalho de as confiar ao papel e de as colleccionar, não as julgando seguramente dignas da publicidade. Nós, porem, guarda avançada da posteridade e justamente zelosos da fama de repentista e humoristico de que gozava o prolifico bardo fluminense, julgamos não dever privar o leitor de por si mesmo appreciar essa face singular daquelle prodigioso talento. Os amadores desse genero de poesia nos agradecerão sem duvida o valioso presente que ora lhes fazemos.

Si mais tarde nos chegarem à mão outras composições da mesma indole do inexgottavel Bocage brasileiro, dal-as-emos em nova edição, si a presente, embora incompleta, merecer o accolhimento que esperamos.

O EDITOR


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[1] MOTTE Juncto a uma clara fonte Analia bella encontrei, Mimosamente banhando Uma cousa que eu ca sei. GLOSA Um dia em que o meu gado Pastorava no deserto, O bosque de um monte perto Vi de flores recamado; Àquelle mimo encantado Me dirigi por defronte, E chegando ao pé do monte, Que suspendia a ramada Dei com uma nympha agachada, [pronuncia-se "c'uma", por ecthlipse] JUNCTO A UMA CLARA FONTE. Pé ante pé, subtilmente Nas hervanças me escondi, E como basbaque alli Puz-me a vel-a attentamente; No collo livio e luzente Dois globos lhe admirei, Rica anagua divisei Suspensa à virilha sua, E dahi p'ra baixo nua, ANALIA BELLA ENCONTREI. Nos calcanhares sustida, Abertas lucidas coxas, No meio entre sombras roxas, Negra cupula crescida, Com o figo parecida, Do meio p'ra o fim rachando; Da fenda, vermelhejando, Pingente rubro surdia, Na qual agua sacudia, MIMOSAMENTE BANHANDO. C'o este painel aturdido, Em chammas de amor acceso, Corro, chego, mostro teso, De Venus o sceptro erguido; Ella assustou-se. "Attrevido!" Me disse assim que cheguei. A seus pés me ajoelhei, Com protestos tão extremos Que alli logo fizemos UMA COUSA QUE EU CA SEI.
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[2] DECIMA Certa mulher de um marquez Fodi por cousa nenhuma, Mas fodi somente uma, Deus me livre de outra vez! A tal putinha me fez Na porra tal desatino, (1) Com seu rebolar maligno Poz-me a mente tão corrupta Que julguei no cu da puta Encontrar o palatino!
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[3] MOTTE Va p'ra puta que o pariu! GLOSA Certa sujeita do paço Um amante namorava, Com quem se punheteava, Com todo o desembaraço; Elle quiz ir-lhe ao cabaço Mas ella lhe retorquiu: "Gentes, pois ja la se viu? Arre la, arrede a trouxa! Si ja não lhe serve a coxa, VA P'RA PUTA QUE O PARIU!"
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[4] MOTTE (2) Porra no cu não é festa. GLOSA Em noite do Espirito Sancto [pronuncia-se "esp'rito", por syncope] Comia certo fanchono Um sacana de alto abono De uma barraca no cantho; Ja lhe tinha um tanto ou quanto Entrado do cu na fresta; Troam foguetes... "E esta?" (Diz o puto em repiquetes) "A que veem estes foguetes? [actualmente, "vêm"] PORRA NO CU NÃO É FESTA!"
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[5] OUTRO Nariz no cu não é festa. GLOSA À foda estando disposto, De uma puta em casa entrei; Sobre a cama me deitei, E, nella tendo-me posto, Na força daquelle gosto Quiz cheirar-lhe o cu. "E esta? (Diz a puta) O que mais resta a se ver num putanheiro? Grandessissimo brejeiro, NARIZ NO CU NÃO É FESTA!"
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[6] MOTTE Você diz que arromba, arromba, Não se arromba desta sorte; Quem o tem apertadinho Vê-se nas ansias da morte. GLOSA A Jonio dizia Eulina, No leito deitada e nua: — É tão grossa a coisa sua E a minha racha tão fina! — Isso arromba-se, menina, Diz elle, encostando a tromba. — O que, meu bem? Você zomba, E abusa da innocencia! Eu lhe peço paciencia, VOCÊ DIZ QUE ARROMBA, ARROMBA! — Ai! Ai!... Com que força fura! Não parece alma christan! Guarde o resto p'ra amanhan, Que ja fez-me uma cisura. Que coisa tão grossa e dura! Ai! Meu bem, esta foi forte!... Com mais outra dá-me a morte!... Modere esse seu furor, Olhe que a porta de amor NÃO SE ARROMBA DESTA SORTE! Na bocca em que a dor mais grassa Impõe e torna sublime, Jonio mil beijos imprime Que à voz servem de mordaça; Nos peitos a mão lhe passa, E assim lhe diz com carinho: — Tire a mão, deixe o conninho, (3) Pois essa dor que a tortura, Sente sempre na abertura QUEM O TEM APERTADINHO. — Você (prosegue extremoso) Agora pensa que morre, Porem logo que se esporre Verá que prazer, que gozo!... Ai!... Entrou!... Não é gostoso? — Não; que dor!... Meu bem, supporte! A bella faz-se de forte, Põe-se co'a bunda a mexer, E entre a dor e o prazer VÊ-SE NAS ANSIAS DA MORTE!
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[7] MOTTE Ja não tenho mais tesão, Ja não sou quem dantes era! GLOSA Amor, ao teu carro em vão Tu me pretendes jungir, Eu não te posso servir, JA NÃO TENHO MAIS TESÃO; De putas um battalhão Ja forniquei noutra era; Ja fodi com porra fera Mulatas, brancas e pretas, Hoje só como punhetas, (4) JA NÃO SOU QUEM DANTES ERA!
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[8] OUTRO Puz entre as mãos de meu bem Alma, vida e coração. GLOSA Fingindo meigo desdem, Estando muito arreitado, (5) O meu caralho entesado PUZ ENTRE AS MÃOS DE MEU BEM; De mil caricias alem, Na cabeça poz-lhe a mão, Com tão doce sensação, Que, apertando a minha bella Lancei numa esporradela ALMA, VIDA E CORAÇÃO.
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[9] MOTTE Marcianna diz que tem Septe varas de chordão; É mentira, não tem nada, Nem dez réis para sabão. GLOSA Leve o demo o maldizente Que maldiz qualquer pessoa; Marcianna é cousa boa, É creoula de patente! Si ella tracta a pobre gente Com desprezo e com desdem, Tem razão, porque tambem Entre os ministros de Estado Um reverente creado MARCIANNA DIZ QUE TEM. Feliz-Asno, que se ufana (6) De saltar de amor abrolhos, Ficou preso pelos olhos Da creoula Marcianna; Qual macaco por banana, Por ella nutre paixão, E, para tal affeição Mostrar com todo apparato, Mandou-lhe com seu retracto SEPTE VARAS DE CHORDÃO. Da gente vizinha vem Aos ouvidos com presteza A noticia da riqueza, Da nobreza que ella tem. Não acredita, porem, Na noticia inesperada, E no contrario firmada Responde a canalha tola: São invenções da creoula, É MENTIRA, NÃO TEM NADA! Chamam-na de mentirosa, De attrevida e malcreada, De impostora e descarada, De miseravel vaidosa! Que gente tão aleivosa! Mas, coitados, teem razão, Pois lhes causa confusão Ver com feições de — rainha Uma negra que não tinha NEM DEZ RÉIS PARA SABÃO!
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[10] MOTTE Marcianna com ciumes Do seu querido socó, De manhan ja não lhe dá O gostoso pão de ló. GLOSA Ja não usa de perfumes, Nem espicha a carapinha A feiticeira negrinha MARCIANNA COM CIUMES: Chorosa ella invoca os Numes Que a mactem sem pena e dó Que a reduzam logo a pó, Porque a vida não lhe agrada, Quando se vê desprezada DO SEU QUERIDO SOCÓ! Na afflicção grande em que está Nem gemmadas, nem mingau Ao ingrato carapau DE MANHAN JA NÃO LHE DÁ: Antes lhe manda que va Ao logar que tem um — O —; E vagando triste e só A soluçar e gemer, Ja não faz para vender O GOSTOSO PÃO DE LÓ!
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[11] MOTTE Quem Feliz-Asno se chama Decerto é asno feliz. GLOSA Si Camões cantou um Gama Por seus feitos de valor, Tambem merece um cantor QUEM FELIZ-ASNO SE CHAMA: Qualquer burro pela lama Enterra patta e nariz, Mas este que com ardis Chegou a ser senador É besta de alto primor, DECERTO É ASNO FELIZ.
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[12] OUTRA Do nosso animal a fama Não consiste em lettras ter; Só contas sabe fazer QUEM FELIZ-ASNO SE CHAMA: Para cobrir-se de lama Até ser ministro quiz, Mas só no nosso paiz Um burro de má figura Chegaria a tal altura: DECERTO É ASNO FELIZ!
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[13] OUTRA Assim como um galho é rama É uma vara cipó, Tambem pode ser Socó QUEM FELIZ-ASNO SE CHAMA: Um leito tambem é cama, Uns dizem gesso, outros giz; Um grande beque é nariz, De um botão brota uma flor; Mas um burro senador! DECERTO É ASNO FELIZ!
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[14] MOTTE Ou são quattro as Graças bellas Ou tu és uma das trez. GLOSA Ou no Becco das Cancellas Ha uma Graça fugida, Por ser no Empyreo fodida, OU SÃO QUATTRO AS GRAÇAS BELLAS. Uma femea egual a ellas La encontrei uma vez Em certa noite de Reis, E lhe disse por chalaça: — Ou ha de mais uma Graça, OU TU ÉS UMA DAS TREZ.
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[15] OUTRO Priapo teve um attaque Ao ver um donzel no mundo. GLOSA Dos connos no grande saque, Que é por todos repetido, Nas luctas enfraquecido, PRIAPO TEVE UM ATTAQUE; O deus tornou-se um basbaque, E as putas com dó profundo Puzeram lucto no sundo; Mas tudo em breve mudou, Porque o deus resuscitou AO VER UM DONZEL NO MUNDO.
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[16] MOTTE As graças servem à mesa, Minerva toma lição, Apollo toca o Bitu Nas chordas do rabecão. GLOSA Famosa e bella barraca La no largo do Rocio Foi, pelo racional brio, Feito com pannos de maca; Do candeeiro à luz fraca, Quasi sempre mal accesa, Vê-se que, com gentileza, Um pagode alli se arvora, Onde, com o cu de fora, AS GRAÇAS SERVEM À MESA. Tambem por entre estas scenas Da nação vê-se o Thesouro Qual um menino do coro, Vendo as partes obscenas [pronuncia-se "obiscenas", por anaptyxe] Daquellas machas pequenas Que, em tão bella posição, 'Té podem fazer tesão À creancinha innocente, A quem, qual mestra prudente, MINERVA TOMA LIÇÃO. Vendo esta scena tão grata, Das Musas o velho pae Afflicto do Pindo sae, Julgando encontrar mammata; Mal chega, as calças desata, Tira as vestes, põe-se nu, Das graças aperta o cu, E, arreitado ficando, Em um rabecão pegando, APOLLO TOCA O BITU. Minerva, coçando o sundo, De ensinar deixa o menino, E agarrar quer no pepino Do louro Apollo jocundo; E, volvendo o cu rotundo Com fremente arreitação, Deixa a musica de mão, Tira o menino do collo, E faz esporrar-se Apollo NAS CHORDAS DO RABECÃO.
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[17] OUTRO As Graças mostram o cu Minerva toma lição Apollo toca o Bitu Nas chordas do rabecão. GLOSA Eu vi hoje uma pintura Feita por habil artista, Que encanta e deleita a vista, E a pica torna-se dura; A deusa da formosura O conno apresenta nu; Vulcano come um caju, Largando a bigorna e o malho; Priapo mostra o caralho, AS GRAÇAS MOSTRAM O CU. Tudo entre os deuses se move, As deusas tomam na greta, Cupido toca punheta No bacamarte de Jove; Das bicas do Olympo chove O leite com profusão; Entre os que levam na mão, Entre os que tomam na via, A todos em putaria MINERVA TOMA LIÇÃO. Quando termina a festança E ja se acabam as fodas, As deusas formam mil rodas, Marca Jove a contradansa; O terno Cupido dansa, Battendo co'as mãos no cu, Mercurio dansa o lundu, Priapo dansa com Juno, Marca o compasso Neptuno, APOLLO TOCA O BITU. Termina a questão famosa E, ja fatigado Apollo, Se foi recostar ao collo Da bella Venus mimosa; Ella toda carinhosa Lhe vae fazendo tesão, E tanto bulliu co'a mão Que, quando menos pensava, Apollo ja se esporrava NAS CHORDAS DO RABECÃO.
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[18] MOTTE Ja sinto gostos na pomba!... Bravo, meu bem, 'stou me vindo! (7) GLOSA Um certo velho Lacomba Com certa puta fodia, Que entre mil luxos dizia: JA SINTO GOSTOS NA POMBA!... O velhinho na maromba Com o cu vae sacudindo E a puta rebullindo A bunda com summo jeito, Diz com gesto satisfeito: BRAVO, MEU BEM, 'STOU ME VINDO!
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[19] OUTRA Caralho grosso e de arromba Marilia alegre gramava, E entre suspiros bradava: JA SINTO GOSTOS NA POMBA! Vermelha cabeça e romba Mais se vae introduzindo, E o caralho ja sentindo Doces cocegas de amor, Dizia em voz de estentor: BRAVO, MEU BEM, 'STOU ME VINDO!
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[20] SATIRA AO REGO Illustrissimos senhores Da nossa Municipal, Deixae que um fraco mortal Inferior dos inferiores, Implore os vossos favores E bondade conhecida, Para que seja attendida E posta em actividade, Com a maior brevidade, Uma importante medida. Ja não servem as calçadas De guarda ao limpo vestido, Que o Rego a ellas unido, Cheio d'aguas encharcadas, Põe as vestes salpicadas D'agua suja a cada instante; Emquanto o gaz implicante Das fezes com que se enfeita, Com seu aroma deleita As ventas do caminhante. Inda aqui nesta cidade, Assim como na campanha, A mesma infelicidade Ao Rego sempre accompanha; A porcaria é tamanha Como nunca vi egual, Porque todos em geral, Eguaes na vontade sua, Converterão em commua O Rego do hospital. Parece fatalidade Esta desgraça do Rego; Sempre com pessimo emprego O tem visto a humanidade; Da natureza a impiedade Deu-lhe um destino bem cru, Quando vejo um homem nu Fico disto na certeza, Pois noto que a natureza Abriu-lhe um Rego no cu! Muita gente ha que nutrindo Economicos desejos, Fazem da casa os despejos, Das despesas prescindindo; Quando tudo está dormindo, Vão cuidar do doce emprego E com todo o seu sossego, Innocencia e singelleza Passam a fazer limpeza Mesmo na bocca do Rego. Causa raiva seriamente, Tira-me todo o sossego, Ver assim o pobre Rego Cagado por tanta gente; Não ter remedio um doente E outras cousas eguaes É mau para os hospitaes, Isto é claro, está bem visto; Mas alem de tudo isto, Cagar no "Rego" é demais! Vós, porem, sabios eleitos Podeis o erro emendar; É dos sabios melhorar Ou destruir os defeitos; Mas si devem imperfeitos Os "Regos" sempre ficar, Mandae-os eliminar De qualquer logar decente, E haja "Rego" somente Onde se deva cagar. Nestes termos pede o vate Do Hospital para sossego, Que seja entupido o Rego Que lhe dá tanto combatte; O Congresso sem debatte, Prompto pode assim dispor; Ninguem satira suppor Va que o meu pedido encerra: Fallo de um Rego de terra, E não do Rego Doutor.
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[21] MOTTE De putas uma remessa O guardião sempre tem. GLOSA Buscava João com pressa, De fanchonos um convento, Mas burlou o seu intento DE PUTAS UMA REMESSA; "Menino, que pressa é essa?" (Diz-lhe uma com desdem) "Si procura achar vintem No convento, não se macte, Que pivias desse quilate O GUARDIÃO SEMPRE TEM."
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[22] OUTRO Alma pura e rosto d'anjo Nella junctos encontrei. GLOSA Disse-me um dia um marmanjo Que furtou-me uma gallinha Que a sua adorada tinha ALMA PURA E ROSTO D'ANJO; Por me não fazer arranjo O caso desconversei; A gallinha lhe tomei, E apalpando-a de novo, Uma gallinha e um ovo NELLA JUNCTOS ENCONTREI.
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[23] MOTTE Uma amizade sincera Só falta, faltando a vida. GLOSA Quando o tesão se apodera De joven, ardente pica, É quando se verifica UMA AMIZADE SINCERA; Lilia ingrata, Lilia fera, Nesta porra endurecida Terás prova desmedida De amizade até que eu morra Pois tesão na minha porra SÓ FALTA, FALTANDO A VIDA.
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[24] DECIMA Por aqui uma só vez Não passo por esta rua, Que não veja esta perua, Na porta com dous e trez; Que fodas não dá no mez Aquelle conno tão quente! E chega a ser tão potente A maldicta da cachorra, Que no cu sempre tem porra, Na porta sempre tem gente!
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[25] MOTTE Pode apalpar, pode ver, Das coixinhas [sic] pode usar, Por fora quanto quizer, Dentro não, que hei de gritar! GLOSA — Meu bemzinho, que desgosto Me está causando você; Sua boquinha me dê, Para mim volte o seu rosto. — Eu consinto no seu gosto, Porem não ha de metter, E si deseja saber Si ainda tenho cabaço, Com todo o desembaraço PODE APALPAR, PODE VER. — Aqui está! Metta o dedinho Na cavidade do centro; Não me carregue p'ra dentro Que me magoa o conninho; Não 'steja tão tristezinho Por eu não me franquear; Você me quer deshonrar! Olhe, eu lhe faço um partido Si é p'ra ser meu marido, DAS COIXINHAS PODE USAR. A coisa pode encostar Por fora, não tenha susto; E, si quer prazer mais justo Pode os peitinhos chupar. Em tudo deixo pegar, Mas só faça o que eu disser, Pois si minha mãe souber Que você... Ai! Ai! Que dor! Ai!... Dentro não, meu amor!... POR FORA, QUANTO QUIZER! — Ja vae você, minha vida, Sua coisinha mettendo... A pomba me está doendo... Eu ja me sinto ferida; Não me queira ver perdida... Va pedir-me p'ra casar... Meu Deus!... E elle a teimar... Olhe que eu me vou embora... Si quizer venha-se fora, DENTRO NÃO, QUE HEI DE GRITAR.
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[26] SONETO (8) A femea capixaba deu entrada No seu leito ao monarcha brasileiro, Que nos gozos de amor, habil, matreiro, A sujeita deixou logo emprenhada. Um jumento pariu! (Pobre coitada!) Tem do Mattoso o rosto traiçoeiro, Do Monte Alegre as pattas, e o trazeiro É a cara do Olinda retractada. Tem do Torres a força intelligente, Do Manoel Felizardo a prenda brava, Com que raivoso vinga-se da gente. Quando Jobim, parteiro, o apresentava Todo o povo dizia geralmente Que de tal pae, tal filho se esperava.
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[27] SATIRA A UM MINISTRO Para mostrar que é mui sabio E filho de boa gente, E dos passados ministros Ser em tudo differente, Sua excellencia da guerra Em tudo que der à luz, Em vez de assignar de nome Pretende assignar de cruz.
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[28] MOTTE Sebo! Caguei! 'Stou zangado! GLOSA Fui uma puta foder, Que era velha, mas bem feita, E quem tal conno rejeita Melhor fora não viver. Puz-me com ella a mexer Num colchão empavezado, Porem, tendo-me esporrado, No diabo da coruja, Fiquei com a calça suja... SEBO! CAGUEI! 'STOU ZANGADO!
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[29] DECIMA (9) No ABC de Cupido Errou você desta vez, Porquanto com um C fez Perder de somno o sentido. Somno com C só ouvido Entesa a porra a seu dono; Com C não se escreve somno, Apprenda com mais trabalho: Com C se escreve caralho Com que vi foder seu conno!
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[30] MOTTE Cupido, rei dos amantes, Rei da puta que o pariu, Escreveu da mãe no cu: Puta assim nunca se viu! GLOSA Longe, longe o preconceito D'impia e van sociedade! Foda toda a humanidade! Foda a torto e a direito! Marilia tem no meu peito Ternos cultos incessantes, Porque, attento aos relevantes Feitos seus de amor nas luctas, A fez rainha das putas CUPIDO, REI DOS AMANTES. Sim, o deus cego ignorava Antes de ver a Marilia, O portento, a maravilha Que o reino fodal guardava; Como ella rebolava Nem no céu rebolar viu; E portanto concluiu Que das putas ser devera Rainha, como elle era REI DA PUTA QUE O PARIU. Mas de amor sempre a doidice Foi constante predicado Posta a cousa neste estado Veiu emfim a parvoice: Tomou por cappadocice Uma penna de peru, Pilha a mãe dormindo, e nu Vendo-lhe todo o trazeiro, O decreto putanheiro ESCREVEU DA MÃE NO CU. O olho do cu divino Leu o decreto: accordada, Furiosa bofetada Solta Venus no menino, Que, tremendo, em desatino: "Marilia!" disse, e fugiu. Tal ouvindo, Venus riu, Exclamando com agrado: "Tens razão, filho adorado, PUTA ASSIM NUNCA SE VIU!"
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[31] MOTTE A pombinha de meu bem Tem assucar refinado. GLOSA Na chacara não sei de quem Fodi com muito embaraço, Porem achei sem cabaço A POMBINHA DE MEU BEM. Comtudo direi que tem Aquelle pomo sagrado Um prazer do céu mandado! Si não tem cabaço dentro, Na cavidade do centro TEM ASSUCAR REFINADO.
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[32] MOTTE Os colhões de José Felix Ja não cabem nas ceroulas. GLOSA Maior que o circo do Telles É a coxa do Cordeiro E ja tem por travesseiro OS COLHÕES DE JOSÉ FELIX. São rugosas, grossas pelles Como cascas de cebollas; Parecem murchas papoulas Esses saccos membranosos, Que, sendo assim volumosos, JA NÃO CABEM NAS CEROULAS.
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[33] AS ROSAS DO CUME No cume da minha serra Eu plantei uma roseira, Quanto mais as rosas brotam Tanto mais o cume cheira. À tarde, quando o sol posto, E o vento no cume adeja, Vem travessa borboleta, E as rosas do cume beija. No tempo das hinvernadas, Que as plantas do cume lavam, Quanto mais molhadas eram Tanto mais no cume davam. Mas si as aguas veem correntes, [actualmente, "vêm"] E o sujo do cume limpam, Os botões do cume abrem, As rosas do cume grimpam. Tenho pois certeza agora Que no tempo de tal rega, Arbusto por mais cheiroso Plantado no cume pega. Ah! Porem o sol brilhante Secca logo a catadupa; O calor que a terra abrasa As aguas do cume chupa!
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[34] MOTTE Estava eu mette não mette, Nunca me aconteceu tal! Derramou-se toda a cera Nas bordas do castiçal! GLOSA Marcianna, Marcia ardente, Em chamma libidinosa, Que eu goze em hora dictosa Seus attractivos consente. Ja damnada, à porra quente Ordena que a foda encete; Eis que um torpor me accommette, E de mim se apoderando Cae-me molle a porra, quando ESTAVA EU METTE NÃO METTE! Mil meios debalde emprego! A porra permanescia Tão molle que se podia Com ella dar um nó cego! Nas coxas, no conno esfrego... Qual tesão! E p'ra meu mal, Perdida a força moral Ao ver-me naquelle estado, Só dizia encaralhado: — NUNCA ME ACONTECEU TAL! Proxima vela, que, accesa, Esta scena allumiava; Seguro, e o que me cercava, Passo a ver com miudeza; Mas oh! terrivel surpresa! A vela se derretera, E, quando eu menos provera, Eu, que a tinha sem cautela, Sobre o pentelho da bela DERRAMOU-SE TODA A CERA! Cae-me o castiçal da mão, Completo escuro domina, E, por mal da minha sina, Reapparece o tesão. Metto sem mais attenção, Sinto em vez do natural Mas um frio de metal Do conno doce agasalho: Tinha mettido o caralho NAS BORDAS DO CASTIÇAL!
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[35] MOTTE (10) Não posso mais atural-o! GLOSA Vi por uma fina greta De um rapaz o lindo rosto; Fiquei morrendo de gosto, Quiz comel-o de punheta. Nisto passou uma preta, Que ia talvez procural-o; Mandei por ella chamal-o, Mas respondeu-me a cachorra: — Meu senhor moço, ora porra! NÃO POSSO MAIS ATURAL-O!
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[36] OUTRA Tinha a pica intromettido Ja toda no cu de um puto, E pelo pentelho hirsuto Tinha a dextra introduzido; Diz-me o puto mui doido: [actualmente, "doído"] — Meu senhor, queira tiral-o! Eu aperto-lhe o badalo, E o puto, então se zangando, Grita, a bunda retirando: — NÃO POSSO MAIS ATURAL-O!
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[37] MOTTE Como vens tão vagarosa, Ó formosa e clara lua! GLOSA Minha voz melodiosa Por que não vens escutar? Por que teimas em tardar? COMO VENS TÃO VAGAROSA! A pomba de Dona Rosa Não chega à belleza tua; Mesmo quando se põe nua, Rebullindo com o cu, Não é bella como tu, Ó FORMOSA E CLARA LUA!
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[38] MOTTE Os segredos do caralho Ninguem os pode entender; Alegre quando tem fome, Triste depois de comer! GLOSA De pedreiro official Contractou um casamento, E guardava (oh! que portento!) Um estado virginal. Em a vespera nupcial Acabou o seu trabalho, E, à sombra de um carvalho, Disse, vendo a terna irman: — Eu vou saber amanhan OS SEGREDOS DO CARALHO. Passando a noite dictosa Desse prazer tão completo, Que, para o tal architecto, Tinha sido deleitosa, Deixa um pouco a terna esposa, Vae da irman à casa ter; E, ao vil-o receber, Diz-lhe elle baixo à orelha: — Mana, segredos d'abelha NINGUEM OS PODE ENTENDER. — É verdade, lhe replica A irman, que a foder é dextra; Nem com ser abelha-mestra Sei os segredos da pica... Não viste tu como fica Antes e depois que come? É uma cousa sem nome!... Nota bem que não gracejo; É só o bicho que vejo ALEGRE, QUANDO TEM FOME! — Reparei, irman querida, E fez-me grande impressão Vir-lhe aquella indigestão Logo depois da comida! Cansado da dura lida Parece que vae morrer; Embalde tenta se erguer Porque a fraqueza o tolhe, E entre os colhões se recolhe, TRISTE DEPOIS DE COMER!
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[39] MOTTE Daqui não ha de sahir. GLOSA Não querendo dar na fina Por ser um grande peccado, Procurei todo arreitado Uma bonita menina; Larguei-lhe uma alicantina Para de graça me vir; Porem, querendo fugir, Quiz-me o chapéu penhorar, Dizendo: — Sem me pagar, DAQUI NÃO HA DE SAHIR!
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[40] OUTRA Estou com Marcia uma hora, Pedi-lhe para fodel-a; Ella me diz: — Sou donzella! E ja queria ir-se embora. Eu, com ar de quem implora, Respondi sem me affligir: — Com o que acabo de ouvir Minha razão se accommoda, Porem sem dar uma foda, DAQUI NÃO HEI DE SAHIR.
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[41] DIÁLOGO (11) — Marilia, meu bem, eu venho, Impaciente e arreitado, A pedir-te neste estado Um pino com todo o empenho. — Pinos feitos eu não tenho Com que o possa consolar; Só si quer aproveitar De um de trez que hontem me deram, Que nenhum mal me fizeram; Veja como quer tomar. — Para mais me não deter Que seja de pé te rogo. — De pé, não, que fico logo Toda convulsa, a tremer!... — Pois então bem pode ser Meia sentada, à ligeira... — Desse modo dá canseira, Nem sei como delle gosta; Si me espicho, estou mal posta, Si me encolho, estou trazeira. — Do cappote a cama bella vê si no chão te consola... — Não, que os joelhos te exfolla, E a mim o cu me rela. — Debruça-te sobre aquella Linda mesa que alli vejo... — Alli não, que ja prevejo Que, alem de outras implicancias, Não posso, no ardor das ansias Abbraçar, nem dar-te um beijo. — Seja à beira do teu leito Sob os meus braços curvada... — Fico assim muito espetada, Sem bullir por mais que arreito. — Vidinha, anda, põe-te a jeito, Seja em cyma ou fora della; Olha que a porra ja mella, Temo que o tesão se abrande... — Si é dura, si é grossa e grande, Oh! sorte!... oh! gosto!... oh! que bella! — De estaccada, ou bella cama, De espavento, ou chavelhão, Tranquilha, ilharga ou malhão, Applaca do caralho a chamma. Ao ver um fodão de fama De arreitado perco o somno! — Da pomba se faça dono, Pegue, metta, me soccorra; Si soluça e pinga a porra, Ja palpita e baba o conno! — Marilia, vê como gostas Que applaquemos tanto ardor; Escolhe seja qual for Uma das modas propostas — Tu de bruços, eu de costas, Teremos fodal victoria: Pega amor, pega na historia, Mette... carrega... circumda!... — Que mimo!... que voz!... que bunda! — Que pino!... que ansia!... que gloria!... — Você, que teve?... que tem, Que aos soluços não dá fim? Sou boa?... gostou de mim?... — Ah! Marilia, no vae-vem Fallei doce?... bulli bem?... Regalaste-me este peito! — Si sou boa e me achou jeito, Repita o mesmo que fez... — Virei para outra vez, Agora estou satisfeito. — Ora bolas, sô poltrão!... Si não tem paixão por greta, Faça a si mesmo a punheta, Não se metta a fodanchão! — Marilia, não é o tesão Traste que esteja guardado... — Va... sô caralho cagado, Traste inutil... homem de borra!... [verso hypermetrico] — Apalpa, e verás a porra No mais lastimoso estado! — Eu te arrenego, maldicta!... Nunca vi cousa mais molle!... Não dá pullos, nem se bolle, Não soluça, nem palpita!... — Sempre depois que vomita Por um pouco fica em borra... — Va-se embora, antes que o corra, Va mandar deitar-lhe uns calços!... Não toque rebattes falsos Com tripa em logar de porra! — Dá-lhe agasalho decente, Põe-lhe e tira a carapuça, Emquanto ella não soluça Corre-lhe a mão brandamente; As cricas do conno ardente Com ella passa a coçar; Verás, quando endireitar, Qual um corno, endurecer, Si é tripa que vae encher, Ou porra que vae vazar? — A engrossar e a crescer Começa contorsões novas, Ja salta, ja dá corcovas, Ja dá signaes de querer... Agora bem pode ser... Si tu queres, repitamos... — Estão a vir os meus amos, Foi-se a vontade e occasião... — Eu não teimo, tens razão, Moça, adeus!... Caralho, vamos!
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[42] MOTTE (12) A mulata, quando fode, Parece querer voar! GLOSA Não ha machina que mais rode, [pronuncia-se "mach'na", por syncope] Tão ligeira e tão subtil, Como seja no Brasil A MULATA QUANDO FODE. Segure-se bem, si pode Quem com ella fornicar, Que a mulata a rebolar Com o vento dos colhões, Toma certos furacões, PARECE QUERER VOAR!
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[43] OUTRA Aqui d'El-Rei! Quem me acode! Que ja me sinto morrer! É o que costuma a dizer A MULATA QUANDO FODE. Ella toda se sacode, Vem abaixo e sobe ao ar; E no seu espannejar Desfaz-se toda em gemidos, Perde a cor, perde os sentidos, PARECE QUERER VOAR!
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[44] OUTRA Dá de rabo quanto pode, Ja se apressa, ja demora, Vira os olhos, geme, chora, A MULATA QUANDO FODE. Ella faz que o conno rode Como um fuso e sem parar Desce à terra, sobe ao ar, Chupa a lingua, dá dentada, E, em luxuria banhada, PARECE QUERER VOAR!
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[45] OUTRA Neste mundo ninguem pode, Nem os melhores pintores, Retractar com vivas cores A MULATA QUANDO FODE; Não ha poema nem ode Que a tanto possa chegar; Só se pode experimentar [pronuncia-se "exp'rimentar", por syncope] Da mulatinha o trabalho, Quando em cyma do caralho PARECE QUERER VOAR!
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[46] A FRUCTA (13) A minha Marcia tinha Uma fructa muito bella, Não no miolo, na casca Era todo o gosto della. Ainda me lembra Que gosto, que lucta Eu tive, tirando A casca da fructa! Entre dous troncos bem grossos, A fructinha se escondia, Às vezes viam-se os troncos, A fructa nunca se via. Ainda me lembra, etc. Por mais verde que ella esteja Sempre tem certa doçura, Mostra o verdor no tamanho, Rachada quando madura. Ainda me lembra, etc. Antes de tirar-lhe a casca O meu bem tanto a zelava Que si eu punha a mão nos troncos Quasi sempre se zangava! Ainda me lembra, etc. Duas rainhas mostrava A natureza só nellas, Era a rainha das fructas Com a rainha das bellas. Ainda me lembra, etc. Meu bem, da rival zelosa, Para sugar-lhe a doçura, Tinha com força apertado A bocca na rachadura. Ainda me lembra, etc. Prostrei-me a seus pés, tremendo Em doce, amoroso abalo, Exigindo ser p'ra sempre Destas rainhas vassallo. Ainda me lembra, etc. Hesitou Marcia um momento, Porem eu tanto roguei Que alli mesmo no jardim O meu despacho alcancei. Ainda me lembra, etc. Consentiu, p'ra que eu sentisse Desse seu fructo a doçura, Que eu puzesse a mão no pomo E a bocca na rachadura. Ainda me lembra, etc. Não, meu bem! dizia ella Toda pia e resoluta; Sem fallar com o vigario, Não me toque nesta fructa! Ainda me lembra, etc.
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[47] A MENINA DO BANQUEIRO O diabo da menina Commigo se enrabichou De tal modo que por mim Um banqueiro abandonou. Dava-lhe o rico banqueiro Seiscentos mil réis mensaes, Eu por dia dou-lhe cinco, A menina pede mais. Pede mais, mas não me deixa Gosta mais do meu dinheiro, Acha mais gosto nas minhas Que nas notas do banqueiro. Tracta as minhas com appreço, Tracta as delle com desdem, Eu não sei, ella é quem sabe As minhas que gosto teem, O banqueiro é um labrego Grosseiro por natureza, Talvez que as notas nem saiba Dar-lhe com delicadeza. Elle dá notas mensaes, Eu dou as minhas por dia, Com toda a delicadeza, Com toda a diplomacia. Às vezes eu dou-lhe as notas Com jeitos e modos taes, Que em suspiros dá-me em troca Ternas notas musicaes. Feito o troco, diz, tremendo A bolsa do meu dinheiro, Quem é que troca esta bolsa Pelo banco dum banqueiro. NOTAS DE GM (1) Tal como em Bocage, "porra" em Rabello não significa "semen" e sim "penis", conforme a correlação entre "porrete" e "pau". (2) Tal como em Bocage, ou até mais explicitamente, a attracção do putanheiro deixa de lado, por vezes, as meretrizes, para se voltar na direcção do "fanchono" ou do "puto", aquelle que hoje seria chamado de "veado" ou "bicha". Outro exemplo da faceta homosexual de Rabello está nas glosas 35 e 36. (3) Tal como em Bocage, "conna" em Rabello é o termo chulo para a vagina, hoje "boceta" no Brasil. Curioso é assignalar que, em ambos os auctores, o termo tende a ser usado no masculino, "conno". (4) "Comer" punhetas, em logar de "batter" ou "tocar", era uso commum na epocha. (5) O termo "arreitado" remanesce no Nordeste brasileiro, não apenas como synonymo de "erecto" ou "em erecção", mas agora em sentido mais amplo, como "arrectado" ou "rectado". (6) "Feliz-Asno" é allusão a um ministro e senador do Imperio chamado Manoel Felizardo, victima de outras satiras de Rabello. (7) Tal como em Bocage, em Rabello a forma verbal "vir-se" equivale a "gozar" ou "ter orgasmo", como actualmente se usa no Brasil. À phrase "Estou gozando!" ou "Vou gozar!" corresponderia, em Portugal, "Estou a vir-me!", mas o brasileiro, que tem preferencia pelo gerundio, diria "Estou me vindo!", como fez Rabello. (8) Todos os nomes citados no soneto são de notorios politicos do Imperio. (9) Nas palavras do editor, "Esta decima foi feita a uma moça que marcara uma entrevista ao poeta. Tendo-se este demorado, recebeu ella um outro amante; o poeta chegou mais tarde e pelo buraco da rotula viu uma scena sobre um sofá, por demais erotica, pelo que retirou-se sem entrar. No outro dia ella escreveu-lhe, dizendo-lhe que por sua causa perdera o — CONNO — toda a noite; a resposta foi esta decima." (10) Ver a glosa 4 e respectiva nota. (11) Este poema satiriza os mineiros, pois, segundo o proprio poeta, "para um mineiro obter uma foda" toda esta conversa teria logar. A allusão à Marilia de Thomaz Antonio Gonzaga é, pois, intencional. (12) Vejam-se abaixo algumas glosas ao mesmo motte, estas de auctoria do repentista bahiano Francisco Moniz Barreto (1804-1868), para que se note como, influenciado pelo tambem bahiano Gregorio de Mattos, o mestre de Rabello foi decisivo na faceta fescennina do Lagartixa: MOTTE A MULATA, QUANDO FODE, PARECE QUERER VOAR. GLOSAS Si é das de buço, ou bigode, E cor bem agarapada, Mais se torna endiabrada A mulata, quando fode. À poncta da lança acode Com ardideza sem par; E, depois de se espetar Toda nella, em doce furia, Como aguia de luxuria, Parece que quer voar. Abrasa, agita, sacode O vivente pelos ares, De Venus nos crespos mares, A mulata, quando fode. Por baixo, ou por cyma rode Na porra, nesse rodar! Mal, que na base do altar Sente batter-lhe os colhões, Fazendo delles balões, Parece querer voar. Só a mulata um pagode Completo off'rece ao caralho; É princeza de serralho A mulata, quando fode. Branca, ou negra, não a pode No rebolado egualar; Quando, ardente, a se esporrar A mulata principia, Nas asas da putaria Parece querer voar. (13) Lettra para um lundu, genero de musica popular antecessor do samba.
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