[7] CONCLUSÃO

[7.1] Ao depormos a pena, no fim do presente ensaio, em que se encarou, de relance, a evolução histórica do soneto, desde o seu aparecimento, na Sicília, na primeira metade do século XIII, estamos a duvidar do mérito do nosso esforço. Acreditamos que, se não lhe faltou tenacidade, no que tange a pesquisas e averiguações, ter-lhe-á faltado, talvez, adoção de melhor método no arranjo da matéria e conveniente amplitude, no respeitante à apreciação crítica da história do invicto poema, no seu longo itinerário no seio das literaturas novilatinas e de outros povos. [7.2] Mereceu-nos particular cuidado a observação da marcha ascendente do soneto brasileiro, assim como a do português, sem esquecermos, entretanto, as suas relações históricas com os das literaturas estrangeiras que influíram diretamente no desenvolvimento de ambos, desde a fase clássica até os nossos dias. [7.3] É exato que, e com pesar registramos isto, após o seu renascimento parnasiano, em que teve magnos cultores, começou o soneto a perder o assinalado esplendor, tendo chegado, por fim, a sofrer sacrílega deturpação do antigo molde, promovida pelo aventureiro ultragongorismo que se há infiltrado em algumas literaturas contemporâneas. [7.4] Certo, não perecerá, ainda assim - poderíamos dizer. Os ciclos, ora brilhantes, ora apagados, da sua evolução histórica, nas letras ocidentais, parecem prever isto. Decadente e desfigurado hoje, às mãos dos bárbaros, readquirirá amanhã o seu antigo brilho e prestígio, em dias de maior vigor literário. A sua estrutura artística, a sua beleza como composição poética e o seu caráter de poema sintético, de relativamente fácil composição e ainda mais fácil retenção na memória do leitor, tudo lhe vaticina a imortalidade... [7.5] Poderíamos, por um lado, assim raciocinar. Por outro lado, entretanto, tal previsão seria ousada, na hora presente, em que não temos base firme para recusar crédito ao fato de estar o mundo ocidental, desde algum tempo, a assistir ao crepúsculo vespertino da Poesia, como reflexo bastante evidente, no domínio das Belas-Artes, do progressivo declínio da sua civilização e cultura. [7.6] O aludido declínio, cada dia mais sensível, seja de caráter definitivo (Spengler) ou seja crise transitória da "cultura sensitiva" (Sorokin), há sido aliás assinalado pelos autores citados e ainda por Danilevsky, J. Ortega y Gasset, Toynbee, H. de Man, J. G. de Beus e outros, senão, sem o mesmo propósito, por Max Nordau e Pompeyo Gener, no século XIX. [7.7] A falsa poesia dominante na hora fluente, sobre não revelar qualquer intenção de ser obra de arte, não será mais do que a refração da inquietude e incerteza do momento histórico. Afigura-se-nos toda ela a tonteira ou o agonizar da própria Poesia, que, assim, afasta a possibilidade de ser emitido juízo ponderado a respeito do futuro desse gênero literário. Demais, a atmosfera que envolve o mundo de hoje, ainda atordoado do fragor de duas grandes guerras, as instantes solicitações da vida atual, a revisão, a que se vem procedendo, dos antigos valores humanos, o ânimo libertário característico do século, e, finalmente, o aparecimento de novas técnicas aptas a provocar emoções coletivas (cinema, televisão, rádio, jogos de vária natureza e publicações ilustradas, com o sugestivo conteúdo de insinuações à sexualidade), tudo isto, em conjunto harmônico, desorienta os espíritos e os desencaminha da rota tradicional da Poesia propriamente dita. [7.8] Contudo, ao menos a título de esperança, encerremos este ensaio com a aplicação ao soneto da seguinte estrofe de Gautier: Les dieux eux-mêmes meurent, Mais les vers souverains Demeurent, Plus forts que les airains.
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